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Depoimento: “Prometi a mim mesma que nunca mais iria deixar minha condição feminina falar mais alto que minha competência.”

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A pesquisadora Laura Maria Molina Meletti — referência na área de maracujá — ingressou no Instituto Agronômico de Campinas (IAC) em 1990, na área de fruticultura tropical. Desde então, dedicou-se à cultura do maracujá — desde o desenvolvimento de cultivares até a transferência de tecnologia e orientação de produtores. Laura contribuiu diretamente para transformar o Brasil no maior produtor mundial da “fruit de la passion”, como é chamado na França. Aliás, a paixão retrata bem o que move essa mulher que se destaca como profissional e ser humano.
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Seus méritos lhe renderam, em 2009, o Prêmio IAC, honraria institucional que reconhece a dedicação e competência do quadro de pesquisadores do Instituto.
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“É a atitude da mulher que determina os resultados”, diz a pesquisadora. Atitude de profissional, mãe e mulher que possibilita a conciliação de todos os papéis femininos. O depoimento abaixo é um exemplo de luta, superação e conquista de uma das 72 pesquisadoras do IAC.
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 Estou no IAC há 20 anos e muita coisa mudou. Só não mudou minha vontade de ver o IAC brilhar sempre, através do trabalho daqueles que vestem a camisa e que sabem que isso tem que ser feito todos os dias. É como um trabalho de formiguinha. A dedicação é a condição para que uma inspiração seja algo realmente novo.
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                Sou engenheira agrônoma formada em 1985 pela ESALQ-USP. Tenho orgulho da minha profissão e de tudo que precisei aprender para continuar nela. Graduei-me numa daquelas turmas com poucas mulheres e muito preconceito. Faço parte do pequeno grupo que foi à luta pelos seus sonhos. Estamos nas Bodas de Prata de formatura; olho para trás e acho que tudo valeu à pena.
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Havia um grande preconceito a ser vencido, dentro e fora da escola. Ele existia até mesmo nos professores e em algumas mulheres. Diante de tantas dificuldades, não foram poucas as que abandonaram a carreira.  A presença feminina na Agronomia, logicamente, era muito apreciada pelos rapazes, que disputavam os cadernos caprichados que os ajudavam a passar de ano quase tanto quanto brigavam pelas meninas mais bonitas. Queriam sempre estar nas equipes mistas.
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Como não havia computador, era tudo manual ou datilografado. Eram as meninas que garantiam qualidade e boa apresentação dos trabalhos. Apesar disso, éramos alvo constante de brincadeiras, tidas como incapazes de exercer a profissão, principalmente quando se tratava de trabalhos de campo, que se dizia que era “coisa para homem”.  Isto sempre me entristeceu. Ajudei muito marmanjo a se formar e cheguei a ouvir deles mesmos que “lugar de mulher é na cozinha.”
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O primeiro obstáculo aconteceu quase no final do curso, quando fui selecionada para um estágio numa grande empresa de sementes, que nem existe mais. Era um estágio remunerado, uma raridade naqueles tempos, quase um prêmio. Foi escolhido um aluno por universidade. Aquele que tivesse o melhor desempenho, no final do ano e já formado, teria uma oportunidade profissional na nova unidade da empresa, em instalação. Engoli minha ansiedade e meu medo de sair de casa e fui para outro Estado, mesmo ouvindo o professor responsável dizer: "Se fosse minha filha, eu não deixaria ir. Lá não é lugar de mulher!".
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Foi uma prova de fogo porque eu só tinha 19 anos. Mas eu sabia o que queria e o que tinha para aprender com aquela oportunidade. Cumpri o estágio integralmente, mantive uma atitude altamente profissional, mesmo tendo passado a maior parte do tempo ouvindo brincadeiras de mau-gosto. Eu vinha da melhor universidade do País, o que já deixava meus concorrentes pouco à vontade, e porque era mulher, tive que fazer tarefas de campo das mais difíceis. Parecia trote.
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Ao final do estágio, o gerente de produção manifestou-se altamente satisfeito com meu trabalho, mas disse que a vaga ficaria para o segundo colocado, porque eu era mulher e não poderia assumir uma unidade em instalação. Hoje, isso daria um processo daqueles, que eu não perderia por nada deste mundo. Na ocasião, porém, ficou por isso mesmo e eu prometi a mim mesma que nunca mais iria deixar minha condição feminina falar mais alto que minha competência. Decidi aí que qualquer que fosse meu trabalho, ele seria o melhor. Acho que o prêmio que eu recebi em 2009 teve origem aí. 
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Ainda existe esse preconceito, só que agora, mascarado. Muitas agrônomas são designadas para "as tarefas de mulher", onde eles acham que fica melhor.
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Formada aos 21 anos, o obstáculo seguinte foi ser mulher e jovem demais para as oportunidades da época. Muitos diziam que agronomia era coisa de “cabra macho”, que eu deveria começar outra faculdade, ainda mais sendo tão nova. Então decidi pela carreira acadêmica, onde idade e sexo não fazem sombra para a competência.
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Acreditei que a Ciência Agrícola poderia trazer a realização profissional que eu desejava desde que eu aceitasse ganhar bem menos que meus colegas da iniciativa privada.  Terminei a primeira pós-graduação, fui dar aulas em Cursos de Agronomia e gostei muito. 
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Envolvi-me em atividades de campo, embora meus pares dissessem insistentemente que isso dava muito trabalho e que tudo iria acabar quando eu  me tornasse mãe. Seria, então, impossível conciliar tudo. Ali eu aprendi que a vontade é a mãe das realizações. Tem que querer muito, de verdade, não importa o que digam. Onde colocar sua vontade sincera, ali aparecerá os resultados.
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            Alguns anos depois apareceu a oportunidade de direcionar minha vida profissional para a Ciência, quando me concursei como pesquisadora científica do Instituto Agronômico de Campinas. A decisão não foi fácil. Deixei de dar as aulas em que eu me realizava e mudei de cidade. Já estava casada e a pressão da família dele foi intensa.
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Como  a maior parte das mulheres podia-se fazer faculdade, mas, ao se casar, tinha que se esquecer que tinha feito. Era inadmissível, naquela época, que o meu trabalho provocasse tanta mudança. Eu cansava de ouvir: "Minha filha, mulher vai onde o marido está! Ele ganha mais, não é? Então se contente que ele é muito bom para você e lhe deixa trabalhar, por enquanto!". Neste ponto, o apoio do meu esposo foi fundamental. Ele me fez ver que o IAC era algo muito importante para mim, então, só por isso, eu tinha que vir.  E estou aqui há mais de 20 anos, com o apoio diário dele.
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            Junto aos produtores, o preconceito foi menor. Eles ficam meio desconfiados. No início, trocam olhares, mas não falam nada. Observam sempre. Tudo depende da sua atitude, de como você chega até eles. É a atitude da mulher que determina os resultados. Quando você leva a informação que eles precisam, com a assinatura IAC, então você ganha um aliado. Eles sorriem, agradecem e, na simplicidade deles, tem os que falam: "Chama aquela ‘fada-madrinha’ que ela resolve”.
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            A parte mais difícil é conciliar todos os papéis femininos. Tenho dois filhos, um de 10 anos, outro de 15. E muita gente que ainda acha que os filhos são só da mãe.  Trabalhar fora e cuidar de todos os "Cs" da nossa vida (Casa, Crianças, Cônjuge e Comentários) é tarefa para leoa. Mas existe o C da Consciência, que é maior. É ela quem nos leva a fazer tudo isso por um sonho, por acreditar que é possível fazer algo novo, maior que o desgaste que tantas solicitações nos trazem. Isso faz parte, mas não pode ser a desculpa para desistir. O marido se houver, tem que ser também dois “Cs”, cúmplice e companheiro.  
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            Todos os dias é preciso fazer um exercício de harmonização desses papéis, se desdobrar e fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Mulher que trabalha fora sabe bem o que é isso. Principalmente as que se mostram mulheres com M maiúsculo, na carreira e na vida. Para conquistar nossos sonhos, temos que torná-los grandes, bem maiores que os preconceitos. De novo, uma questão de atitude.
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Dra. LAURA MARIA MOLINA MELETTI
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Pesquisadora Científica VI Coordenadora do Programa Maracujá - IAC

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