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Clima e cafeicultura - IAC acredita nas técnicas agronômicas de mitigação e adaptação frente ao aquecimento global\r\n\r\n
Pesquisador do IAC palestra nesta quinta, 18, sobre as variações climáticas e a cafeicultura na mais importante conferência internacional
Por Carla Gomes (MTb 28156) ? Assessora de Imprensa ? IAC
Para uma instituição de pesquisa agronômica que registra dados de chuva e temperatura desde 1890, como é o caso do Instituto Agronômico (IAC-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, as adversidades climáticas ocorrem de forma cíclica e interferem na produção do café. A notícia de um possível aquecimento não surpreende o Instituto porque o trabalho de melhoramento genético do IAC sempre objetivou a adaptação de culturas a regiões adversas, com situações de clima e solo bem diferentes das existentes nas localidades de origem das plantas. Desde o início das pesquisas no IAC, fosse por questões de relevo, temperatura, regime de chuvas ou fitossanidade, a pesquisa agronômica investigou e gerou tecnologias que fizeram da agricultura o que é hoje.
Os dados de clima coletados e registrados no IAC, somado ao conhecimento acerca das plantas, permite ao Instituto avaliar situações da agricultura com consistência. É o caso do aquecimento e os reflexos para a cafeicultura. Sobre esse tema, o pesquisador do IAC, Marcelo Bento Paes de Camargo, irá palestrar na ASIC 2008 (22nd International Conference on Coffee Science), a mais importante conferência internacional do café, em Campinas. A palestra será nesta quinta-feira,18, às 14h.
PhD em agrometeorologia, Camargo irá expor a relação entre as variações climáticas e a cultura do café. O pesquisador abordará também as técnicas agronômicas de mitigação e adaptação ao aquecimento, como a arborização em cafezais, que reduz a temperatura em até 3ºC. A divulgação dessas ações é fundamental para esclarecer o setor produtivo, que está inseguro diante de notícias sobre aquecimento global. ?A afirmação de que o aquecimento de 3°C, previsto para 2040, ocasionaria muitas mudanças climáticas e inviabilizaria a cafeicultura na maior parte da região Sudeste e que migraria para a região Sul do Brasil é prematura?, diz Camargo.
A afirmação é sustentada nos experimentos realizados pelo IAC desde a sua fundação. O Instituto acredita na eficácia de técnicas agronômicas que alteram o microclima do cafeeiro, reduzindo a temperatura e ampliando produtividade e qualidade.
Sobre os efeitos devastadores do aquecimento global, apontados por estudos de alguns órgãos de pesquisa a partir dos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), Camargo afirma: ?O relatório é obviamente preocupante, muito embora os próprios relatórios contenham um alto grau de incerteza nos resultados dos modelos de previsão em longo prazo?.
Nos últimos quatro anos, experimentos com arborização em café têm mostrado ? em dias quentes - reduções de temperatura de 3ºC, quando usadas árvores maiores, como seringueira, e de 2ºC, com árvores menores, como bananeira e coqueiro-anão. Segundo o pesquisador, a técnica da arborização permite a entrada de 70 a 80% da energia solar, reduzindo as amplitudes térmicas e minimizando os efeitos do vento, que ferem as folhas e propicia o aparecimento de doenças.
A arborização não é uma solução nova ? constava já no primeiro relatório do IAC, em 1895. O Instituto, porém, vem aprimorando os estudos ao longo dos anos para trazer soluções a questões, como o aquecimento global. Com base na experiência em clima e cafeeiro, o IAC não acredita na migração da cafeicultura para o Sul do País, como apontam estudos. Segundo o pesquisador, além da temperatura média, é preciso considerar aspectos de amplitude térmica, risco de geadas, regime de chuvas e fotoperíodo (número diário de horas de luz existente em cada região), que são incompatíveis com as necessidades do café. ?Este ano ocorreram 12 geadas no Rio Grande do Sul, a última na semana passada?, diz Camargo, ao esclarecer que a temperatura média não é o único fator a ser considerado. De acordo com o pesquisador, o risco de geadas aumenta muito conforme a elevação da latitude, a partir do Paraná para o sul do Brasil. ?As geadas sempre vão ocorrer, independentemente do aquecimento?, explica.
No Sudeste não há geada desde 2000. Os dados registrados pelo IAC mostram que, em média, ocorre uma geada severa a cada 15 anos. São exemplos as geadas severas de 1892, 1902, 1918 (a pior delas), 1942, 1953, 1975, 1981, 1994 e 2000.
Segundo o pesquisador do IAC, o fotoperíodo é um dado astronômico, imutável e interfere na fenologia da planta, diretamente na indução ao florescimento e época da maturação dos frutos. ?O café é planta de verão quente e úmido e inverno moderadamente seco?, afirma. Camargo explica que o estresse hídrico é benéfico, principalmente para a qualidade do café, nos meses de junho e julho, pois a umidade propicia mais de uma florada no cafeeiro, prejudicando a uniformidade de grãos.
A gravidade das infestações de pragas e doenças está relacionada às condições microclimáticas ? os principais problemas fitossanitários associados ao microclima são: broca-do-café, bicho-mineiro, ferrugem das folhas e seca-dos-ponteiros. Estudos mostram que a arborização reduz em 25% os gastos com defensivos, ao evitar que os ventos firam as folhas e, conseqüentemente, ocorram doenças.
O manejo do mato, outra ação mitigadora, reduz a temperatura do ar e do solo, além de proteger contra a erosão. Outro ganho é o aumento do teor de matéria orgânica, ampliando a retenção de água e melhorando a distribuição do sistema radicular.
Adversidades meteorológicas ocorrem em ciclos
Durante a palestra na ASIC 2008 (22nd International Conference on Coffee Science), o pesquisador do IAC irá mostrar também que as adversidades meteorológicas ocorreram de forma cíclica, com períodos típicos de 15 a 20 anos. ?A década de 60 foi marcada por secas acentuadas nos anos de 1961 e 1963, que afetaram a produção de café de forma drástica nos anos de 1962 e 1964?, afirma. De acordo com Camargo, em 64, a produção de café foi zero em São Paulo e Paraná. ?A cafeicultura ficou em vara?, diz. A razão: em 63 choveu no final de janeiro e depois só voltou a chover em dezembro. Naquele ano, houve seqüência de quase dois meses (setembro e outubro) de temperaturas máximas superiores a 35ºC. Esse período é crítico para o café, pois coincide com a fase da florada e a temperatura elevada provoca o abortamento das flores. Em Campinas, conforme registros do IAC desde 1890, o recorde de temperatura é de 37,5º C, em 15 de novembro de 1985.
Segundo Camargo, nos últimos 10 anos, a agricultura tem sofrido com temperaturas elevadas, especialmente nos anos de 2002 e 2007, o que confirmaria em parte o problema do aquecimento global atingindo também o Brasil. Porém, os pesquisadores do IAC acreditam que a ciência agrícola pode gerar ferramentas tecnológicas capazes de amenizar os efeitos do aquecimento, a exemplo do que já foi feito na fruticultura, em que a ciência do IAC viabilizou o cultivo de frutas de clima frio em regiões quentes.
Além de tecnologias mitigadoras, o IAC está desenvolvendo variedades de café que toleram temperaturas mais altas. O resultado da pesquisa que transfere a tolerância do café robusta para o arábica deve viabilizar a substituição do arábica em regiões quentes. A previsão para a conclusão desse estudo é de, no mínimo, seis anos.
Os aspectos agrometeorológicos dos cultivos são fundamentais para auxiliar na definição de soluções ? mas é preciso somá-los ao conhecimento que se tem acerca da cultura, no caso o cafeeiro. Na avaliação de Camargo, a ciência meteorológica progrediu muito nos últimos anos. Porém, ainda não é possível a previsão com antecipação de três a seis meses sobre como seria a próxima estação. ?A previsão de cenários ainda mais distantes, como daqui a 10, 20, 50 anos, é no mínimo inconsistente para concluirmos como ficará o cenário do clima para as atividades agrícolas em qualquer parte do planeta?, diz.
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