Notícias IAC

Pesquisa do IAC sobre cafeeiro é publicada na Nature

Principal revista de ciência do mundo traz na edição de 24 de junho pesquisa desenvolvida pelo IAC em parceria com a Unicamp

O Instituto Agronômico (IAC) completa 117 anos neste dia 27 de junho e é presenteado com a publicação de uma de suas pesquisas na Nature, principal revista científica do mundo. As informações da descoberta realizada pelo IAC sobre um cafeeiro arábica naturalmente descafeinado estarão na edição que circula nesta quinta-feira, 24, um dia antes das comemorações do aniversário do IAC.
Em busca de baixa quantidade de cafeína na semente de café, o caminho adotado pelos pesquisadores do IAC, Maria Bernadete Silvarolla e Luiz Carlos Fazuoli, e do professor Paulo Mazzafera, do Instituto de Biologia da Unicamp, chamou a atenção da comunidade científica mundial, daí o interesse da revista editada em Londres divulgar o assunto. Os três são agrônomos, sendo Bernadete e Fazuoli com formação em genética e melhoramento de plantas, e Mazzafera com formação em fisiologia vegetal.
A fim de caracterizar o banco de germoplasma com o objetivo de localizar café com baixa cafeína, os pesquisadores assumiram o caminho chamado por Bernadete de natural, o que significa a análise de três mil plantas do cafeeiro arábica da Etiópia, de 300 famílias desse tipo de cafeeiro. O ?trabalho de garimpo? teve início em 1999 e de lá para cá os pesquisadores analisaram planta por planta em busca da baixa quantidade de cafeína. ?O IAC trabalhou de forma sistemática, acreditando que a natureza poderia prover um mutante natural, e foi encontrado?, relata a pesquisadora.
Da avaliação desse Banco de Germoplasma, os pesquisadores identificaram três plantas quase completamente livres de cafeína nas sementes ? elas apresentam 0,07% dessa substância, enquanto que o café comum tem em torno de 1% de cafeína nas sementes. O índice de 0,07% é considerado muito reduzido, próximo da quantidade existente no café descafeinado encontrado no mercado. Atualmente, os processos químicos são a ferramenta para chegar ao produto descafeinado.
A dosagem final de cafeína nas sementes foi feita pela Unicamp. A quantificação desse componente foi feita pelo aparelho HPLC, que o IAC não dispunha à época do início das análises. Posteriormente, o IAC adquiriu esse equipamento de alta precisão, mas preservou a parceria com o pesquisador da Universidade, Paulo Mazzafera.
Desde o início de sua história, há 117 anos, o IAC sempre prezou por disponibilizar materiais que abram novas oportunidades para o agricultor. Com essa descoberta, será possível explorar um nicho de mercado para a toda a cadeia produtiva, pois dados indicam que 10% de todo café mundial é destinado a descafeinação química. Portanto, o mercado para esse tipo de produto já existe e tem sido abastecido pela indústria, que utiliza a extração química para retirar a cafeína do café, aumentando o custo final para o cliente. Para os consumidores que apresentam efeitos colaterais diante do consumo de cafeína, a pesquisa cria a opção de um café naturalmente descafeinado.
Futuro
As três plantas encontradas ao final da análise foram designadas de AC1, AC2 e AC3. A sigla AC significa Alcides Carvalho é uma homenagem ao mais importante pesquisador da cafeicultura brasileira. Ele trabalhou no IAC desde a década de 30 até 1993, quando faleceu, e durante esse período foi um grande colaborador para a formação do banco de germoplasma de café.
A descoberta abre uma nova fase para pesquisas futuras. Os pesquisadores acreditam que usando técnicas de melhoramento convencional característica de baixa cafeína pode ser transferida com sucesso para as variedades Coffea arabica cultivadas pelos produtores, uma vez que as hibridações serão feitas dentro da mesma espécie.
Segundo Bernadete, os cafeeiros silvestres (que não sofreu variabilidade genética) da Etiópia analisados não têm a mesma produção das variedades de elite, que são as já cultivadas. Por isso, acredita-se que será necessário fazer o cruzamento do material silvestre com as cultivares já plantadas. Os pesquisadores também vão testar o material na forma como está, sem melhorá-lo, e avaliar o desempenho dele no campo, se atende às exigências do produtor. Serão várias as tentativas a partir de agora. Os próximos resultados exigirão um novo longo tempo de pesquisa, que pode variar de cinco a 15 anos, já que o café é uma planta perene.
Méritos da pesquisa
Além de abrir novas possibilidades para o agronegócio café, a pesquisa realizada tem dois importantes aspectos: um está na trabalhosa forma de trabalho, caracterizada por dedicação e transpiração, que exigiu a análise de cada planta. Segundo Bernadete, esse não é um projeto de grande investimento financeiro, mas destaca-se pela garimpagem feita ao longo desses anos.
Esse destaque se deve ao fato de pesquisas com a mesmo finalidade serem desenvolvidas em outros países por meio da transgenia, que além de envolver resistências aos organismos geneticamente modificados, ainda onera mais o trabalho.
Os pesquisadores, porém, optaram pelo caminho natural, da análise planta a planta. Antes de chegar ao resultado, eles também tentaram, sem bons resultados, a hibridação interespecífica, que consiste no cruzamento manual de espécies mais ou menos aparentadas.
O outro mérito dessa pesquisa está no fato de o IAC manter um excelente banco de germoplasma, que está entre os melhores do mundo. Desde 1932, quando teve início o Programa de Melhoramento Genético do Cafeeiro no IAC, esse banco começou a ser formado e, desde então, os pesquisadores do Centro de Café se dedicam a introduzir novos materiais, preservar e selecioná-los, o que permite saber como poder ser usado o recurso genético. ?Esse material preservado no IAC mostra sua importância para a humanidade, porque se destruído acaba-se a matéria-prima do melhorista?, considera Bernadete.
Na avaliação da pesquisadora Bernadete, essa descoberta é muito relevante também para chamar a atenção da comunidade científica e de autoridades governamentais para a necessidade de manter e caracterizar os bancos de germoplasma. De acordo com a pesquisadora, esse alerta não vale só para o café, mas para toda a rica biodiversidade brasileira, que pode ser destruída antes mesmo de se conhecer o que há disponível na natureza e quais as possíveis aplicações no desenvolvimento científico e social. ?Essa pesquisa é a prova cabal do valor do recurso genético?, afirma.
Essa pesquisa teve o apoio financeiro da FAPESP, do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café e do CNPq.

Carla Gomes (MTb 28156) - Assessora de Imprensa - IAC

Para mais informações acesse -


Sede do Instituto Agronômico (IAC)
Avenida Barão de Itapura, 1.481
Botafogo
Campinas (SP) Brasil
CEP 13020-902
Fone (19) 2137-0600