Instituto Agronômico alerta para aquecimento consistente e chuvas extremas em São Paulo

Por Carla Gomes (MTb 28156), jornalista científica e assessora de comunicação IAC

O Instituto Agronômico (IAC) divulgou novos resultados sobre o comportamento climático em Campinas e no Estado de São Paulo com base em seus registros históricos e atuais. O estudo mostra que, embora não haja evidências robustas de redução consistente das chuvas, há uma alternância de anos secos e chuvosos fortemente influenciada pelos fenômenos El Niño e La Niña. O principal sinal climático identificado é o aumento contínuo das temperaturas, especialmente das mínimas noturnas, com aquecimento mais expressivo em diversas regiões do Estado. No campo, essa condição é particularmente relevante para a sanidade vegetal e animal, pois reduz a ocorrência de frio efetivo necessário para interromper ciclos de determinados insetos e patógenos, além de favorecer maior sobrevivência de populações-praga entre safras.

Para a pecuária, noites mais quentes diminuem a capacidade de dissipação do calor acumulado durante o dia, prolongando períodos de desconforto térmico aos animais. Em conjunto, as anomalias positivas de máximas e mínimas observadas em agosto deste ano reforçam o cenário de aquecimento já identificado nas séries históricas, com potenciais reflexos sobre a produtividade agrícola, a demanda hídrica e a dinâmica fitossanitária dos sistemas produtivos paulistas.

As análises apontam incrementos anuais próximos de 0,02°C, o que representa um aquecimento acumulado de até 2°C em um século. “Esse padrão revela noites cada vez mais quentes, redução da ocorrência de frio intenso e geadas, além de maior estresse térmico sobre a agricultura e os ecossistemas”, comenta Angelica Prela Pantano, pesquisadora do IAC, ligado à Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA) e à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

Em setembro passado, Campinas registrou o maior volume de chuvas da série histórica para o mês: foram 269,5 mm, enquanto o normal para setembro gira em torno de 65-70 mm Esse registro supera inclusive eventos extremos observados nas décadas de 1920, 1940 e 1980. A série de dados analisada pelo IAC mostra anos com volumes de chuva próximos de zero e outros com totais superiores a 100 mm, refletindo a irregularidade típica do período. O recorde ocorreu em meio à transição para um episódio de El Niño de forte intensidade, condição que favorece maior transporte de umidade e aumento da frequência de sistemas meteorológicos produtores de chuva sobre grande parte das regiões Sul e do Sudeste do Brasil.

 “A combinação entre temperaturas crescentes, maior capacidade de retenção de vapor d'água pela atmosfera e a atuação de um El Niño forte cria condições favoráveis para a ocorrência de chuvas excepcionais, como a observada neste início da safra agrícola”, explica a pesquisadora.

Assim, o volume registrado em setembro de 2026 representa não apenas um marco histórico para a série analisada, mas também um importante sinal de alerta para o monitoramento dos impactos climáticos sobre a agricultura, os recursos hídricos e os eventos hidrometeorológicos extremos no Estado de São Paulo.

 “Tornam-se mais frequentes os eventos de noites quentes, a redução da ocorrência de temperaturas baixas e geadas, o aumento da demanda hídrica das culturas e a intensificação dos efeitos do estresse térmico sobre os sistemas produtivos”, comenta a pesquisadora.

Segundo os pesquisadores, embora um único evento não possa ser interpretado isoladamente como evidência de mudança climática, o recorde histórico observado em setembro está alinhado com um cenário em que eventos extremos de precipitação tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos em uma atmosfera mais aquecida.

A análise reforça a importância da ampliação da rede oficial de estações meteorológicas e do monitoramento integrado para apoiar a gestão dos riscos climáticos no Estado de São Paulo, garantindo segurança hídrica e alimentar.

Desvios de temperatura superam 2°C em algumas regiões paulistas

As anomalias das temperaturas máximas em agosto indicam predomínio de valores acima da normal climatológica em praticamente todo o Estado, com desvios que superam 2°C em partes do Norte, Nordeste e Leste paulistas.

A distribuição espacial das temperaturas máximas médias de agosto evidencia forte variação térmica no território paulista. Os maiores valores estão concentrados no Norte e Noroeste do Estado, onde predominam médias entre 31,6°C e 35,4°C. As regiões Central e Oeste apresentam valores intermediários, enquanto o Sul e as áreas de maior altitude registram condições relativamente mais amenas.

Impactos no campo

Esse excesso de calor durante o período seco favorece o aumento da evapotranspiração e acelera o esgotamento da umidade disponível no solo. Essa condição amplia o estresse hídrico das culturas de sequeiro e eleva a suscetibilidade da vegetação a pragas, doenças oportunistas e incêndios rurais. Para a produção animal, tardes mais quentes podem reduzir o conforto térmico, afetando o consumo alimentar e o desempenho produtivo, especialmente em sistemas mais intensivos.

Na primeira quinzena de setembro, as temperaturas máximas médias mantiveram-se elevadas em grande parte do Estado, com valores superiores a 28°C no Norte e Noroeste paulistas. As regiões Sul e Leste registraram condições mais amenas em função da maior frequência de nebulosidade e precipitações.

O estudo mostrou que o aspecto mais relevante é revelado pelo mapa de anomalias, que indica máximas entre 2°C e 8°C abaixo da climatologia em praticamente todo o território paulista. “Essa condição favoreceu a redução da evapotranspiração e do consumo hídrico pelas culturas, diminuindo temporariamente a pressão sobre os sistemas produtivos em um período normalmente marcado por forte demanda atmosférica por água”, explica a pesquisadora do IAC.

A combinação entre chuvas abundantes e temperaturas máximas abaixo do normal criou condições favoráveis para a recuperação da umidade do solo, o estabelecimento de culturas de verão e a retomada do desenvolvimento vegetativo das pastagens.

Por outro lado, a persistência de elevada umidade associada ao menor aquecimento diurno aumenta o risco de ocorrência e disseminação de doenças fúngicas e bacterianas em diversas culturas, exigindo atenção dos produtores ao monitoramento fitossanitário. O excesso de umidade também dificulta operações mecanizadas, pode provocar erosão em áreas desprotegidas e compactação do solo.

“A predominância de mínimas relativamente elevadas para um mês tipicamente invernal corrobora o sinal identificado na série histórica de Campinas, que apontou aquecimento mais intenso das temperaturas mínimas em comparação às máximas”, afirma a pesquisadora do IAC.

Chuvas e reservatórios de água

Apesar de esse volume de chuvas ter trazido alívio imediato para os reservatórios de água, os indicadores de seca de longo prazo mostram que a recuperação hídrica ainda é insuficiente para reverter os déficits acumulados desde 2019, especialmente nas áreas de influência do Sistema Cantareira, que opera com cerca de 40% da capacidade.

Os pesquisadores afirmam que os benefícios associados à recuperação hídrica dependem da distribuição temporal das chuvas nas próximas semanas, de modo que a reposição dos estoques de água ocorra sem comprometer a sanidade das lavouras e a conservação dos recursos naturais.

A análise do índice de seca, Índice de Precipitação Padronizada (SPI), de 24 meses, revela que, apesar das chuvas expressivas registradas em setembro de 2026, a recuperação hídrica de longo prazo ainda é insuficiente para afastar totalmente as preocupações relacionadas ao armazenamento de água.

O SPI de 24 meses reflete não apenas a chuva recente, mas a condição integrada das precipitações ao longo dos últimos dois anos, estando diretamente relacionado à recarga de aquíferos, vazões de base dos rios e níveis dos reservatórios. “Apesar da significativa recuperação observada em setembro, o Sistema Cantareira opera atualmente com cerca de 40% de sua capacidade, nível superior ao do mesmo período de 2025, mas ainda distante das condições de conforto hídrico verificadas em anos hidrologicamente favoráveis”.Em Campinas, o índice permaneceu em valores predominantemente negativos entre 2019 e 2024, caracterizando um período prolongado de déficit hídrico acumulado.

Embora essas chuvas tenham contribuído para o reabastecimento parcial dos reservatórios, também aumentaram a ocorrência de alagamentos, enxurradas e transtornos à mobilidade urbana, sobretudo em áreas com alta impermeabilização do solo e sistemas de drenagem insuficientes. Outro fator de preocupação é o elevado grau de assoreamento de muitos córregos, rios e reservatórios, que reduz sua capacidade de armazenamento e escoamento, potencializando os impactos das precipitações intensas mesmo quando os volumes não atingem valores extremos.



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