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Programa Cana IAC levanta dados junto a 203 empresas canavicultoras e traça perfil de atuação
Informações mostram a importância da mecanização e da otimização dos processos agrícolas para reduzir impactos financeiros.

Em uma abrangente pesquisa sobre o plantio de cana-de-açúcar no Brasil, o Programa Cana IAC levantou dados junto a 203 empresas canavicultoras em 16 estados brasileiros, totalizando 964 mil hectares. O resultado do estudo mostra que a mecanização do plantio de cana tem avançado rapidamente no Brasil. Os dados indicam que 75% das áreas já adotam processos mecanizados, com exceção de regiões como Piracicaba, Mato Grosso e Nordeste. Nesses locais, o terreno e outros fatores dificultam a implementação total da tecnologia. Por outro lado, 70% das empresas ainda não adotam a irrigação, apesar da importância dessa prática para garantir estabilidade na produção. A baixa adesão a esta tecnologia não se deve à falta de água, mas sim ao custo elevado e à distância das áreas irrigáveis. Esses desafios financeiros e logísticos dificultam a ampliação dessa prática, até o momento.
O estudo também aponta um crescimento de 4% na área de plantio para 2025, o que pode influenciar as estimativas de produção. Os custos da implantação de canavial cresceram 84% nos últimos nove anos, segundo dados do Instituto Pecege.
“Desde 2018, a mecanização tem crescido de forma acelerada, impulsionada principalmente pela escassez de mão de obra, que representa 60% dos motivos para a adoção deste recurso. Além disso, os produtores apontam a redução de custos, o aprimoramento das máquinas e o maior aprendizado como fatores que contribuem para essa transição”, comenta o responsável pelo levantamento, Rubens Braga Junior, estatístico e consultor do Programa Cana IAC, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA).
Os dados apurados reforçam também a necessidade de estratégias eficientes, como investimentos em mecanização, planejamento nutricional e ampliação da irrigação de modo a obter maior produtividade e sustentabilidade econômica. As respostas mostram que o setor precisa de melhor planejamento e maior investimento na formação de viveiros com o objetivo de garantir mudas de qualidade para evitar impactos negativos ao longo dos ciclos produtivos.
Essa pesquisa vem sendo expandida ao longo dos anos e são incorporadas novas variáveis, como mecanização, adubação, irrigação, matologia e florescimento, permitindo um diagnóstico mais preciso das tendências e desafios da cultura da cana-de-açúcar no Brasil.
Para Braga Junior, a divulgação desses dados contribui para o aprimoramento das práticas agrícolas e para a tomada de decisões fundamentadas por parte dos produtores e demais agentes da cadeia produtiva.
Crescimento da irrigação é lento mas progressivo
Apesar de 70% das empresas ainda não usarem a irrigação, prática que viabiliza a manutenção da população de plantas e possibilita a estabilidade na produção, a pesquisa realizada pelo Programa Cana IAC mostra um crescimento de oito pontos percentuais na sua adoção. Há três anos, 78% das áreas não eram irrigadas e atualmente esse número caiu para 70%. Apesar da expansão da irrigação, a pesquisa identificou que o custo elevado e a distância das áreas irrigáveis são os principais desafios para a implementação mais ampla da prática. A tendência, no entanto, é que, com o aumento da adoção da irrigação, os investimentos se tornem mais acessíveis, permitindo maior disseminação da tecnologia. Essa condição poderá levar o setor sucroenergético a alcançar maior estabilidade produtiva e reduzir impactos climáticos sobre a cultura da cana.
“Um dado relevante do estudo é que a falta de água não é o principal obstáculo para a irrigação. Entre as 203 empresas analisadas, a maioria tem disponibilidade hídrica, mas enfrenta desafios logísticos e financeiros para implementar o sistema de forma mais ampla”, comenta o responsável pelo levantamento, Rubens Braga Junior.
Entre as empresas que irrigam seus cultivos, o método mais comumente adotado é a irrigação por aspersão, seguido pela irrigação por gotejamento, além de outros sistemas alternativos para aplicação de água, como caminhão-pipa ou trator acoplado a tanque com adaptações para distribuição localizada da água. “Várias estratégias podem ser adotadas no uso da irrigação na cana-de-açúcar, dentre estas, a irrigação por salvamento é feita em grande parte da área irrigada no país. Essa estratégia é essencial para garantir a brotação da soca e com isso garantir a população de plantas”, explica a pesquisadora e vice-diretora do IAC, Regina Célia de Matos Pires.
Ressaltam-se também as estratégias com uso de irrigação com déficit hídrico e a plena, com reposição da demanda hídrica das plantas. Portanto, o uso desta técnica é associado à segurança de produção frente às deficiências hídricas por meio da garantia de população de plantas, produtividade e longevidade do canavial. “Atualmente, metade das empresas que fazem uso da irrigação adotam o salvamento, enquanto o restante se divide entre irrigação plena e irrigação deficitária”, comenta Braga Junior. Em relação ao uso da vinhaça e adoção da fertirrigação, o estudo mostrou também que os mais utilizados, nos últimos três anos, foram vinhaça diluída e vinhaça pura.
Uso de viveiros ainda é baixo no setor
O estudo aponta também que apenas 30% das empresas fazem uso de viveiros, enquanto 58% utilizam canas de primeiro corte e mais de 70% recorrem a mudas de primeiro e segundo corte. Desde 2018, a proporção de viveiros vem diminuindo, indo na contramão das recomendações técnicas. “Essa prática evidencia uma falta de planejamento, já que a formação de viveiros exige um preparo antecipado de pelo menos um ano – trata-se de desafio preocupante na origem das mudas utilizadas no setor”, avalia o responsável pelo levantamento.
Outro dado relevante observado é a participação dos fornecedores na produção de cana-de-açúcar. “Pela primeira vez, foi possível quantificar essa contribuição, que corresponde a 31,2% da moagem total das empresas analisadas, um número próximo da estimativa de 30% frequentemente mencionada no setor”, ressalta.
Época do plantio, características e manejo
A mecanização e a padronização do espaçamento do plantio também se mostram como tendências consolidadas, indicando um avanço na modernização da canavicultura, que é essencial para enfrentar desafios como a escassez de mão de obra e as variações climáticas. Essa estratégia é essencial para garantir competitividade e produtividade para os produtores, de acordo com a análise do estudo.
O levantamento mostra também uma mudança no espaçamento do plantio, em que 1,5 metro tem se tornado padrão, substituindo gradativamente o sistema de duplo alternado, que apresentou uma queda de quatro pontos percentuais em dois anos.
“Essa transição está diretamente ligada à da mecanização, que tem sido cada vez mais adotada pelas empresas do setor, pois as máquinas estão calibradas para esse espaçamento”, explica o consultor Rubens Braga Junior.
Sobre a época de implantação do canavial, a pesquisa mostrou que a cana de ano e meio, plantada entre dezembro e março, continua sendo a mais utilizada, seguida pela cana de inverno, plantada entre maio e agosto, e pela cana de ano, plantada entre setembro e novembro, que ainda representa 10% da área total.
Além disso, foi investigada a prática de cultura intercalada que, embora frequentemente associada à técnica de Meiosi (Método Interrotacional Ocorrendo Simultaneamente), tem sido aplicada por produtores que não utilizam esse método, demonstrando uma diversificação nas estratégias de cultivo.