Desafios para produção sustentável de biocombustível envolvem os impactos no solo

 

 
O pesquisador da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de são Paulo, que atua no Instituto Agronômico (IAC), Heitor Cantarella, abordou os desafios para a produção sustentável de biocombustível e os impactos no solo, durante o II Encontro Paulista de Ciência do Solo (EPCiS) e I Encontro de Pedometria, realizados na sede do IAC, em Campinas, no mês de março de 2016. Cantarella falou também da importância que o Brasil tem em relação às energias renováveis e à bioenergia, especialmente no caso do etanol.
Considerado um combustível renovável, o etanol reduz as emissões de gases de efeito estufa, com potencial para minimizar o aquecimento global. Esse aspecto valoriza a produção do etanol, segundo o pesquisador.
Sobre o cálculo da economia de CO? feito pelo uso dos biocombustíveis, Cantarella afirmou que é preciso levar em consideração alguns aspectos importantes, como a produção de insumos químicos consome energia e emite CO?. “A emissão direta e indireta nas operações de campo, com utilização de óleo diesel pelos tratores, a emissão de óxido nitroso, que é um potente gás de efeito estufa, pelos fertilizantes, e o processamento da matéria-prima para a produção do biocombustível devem ser computados”, diz o pesquisador.
Cantarella também enfatizou que os fertilizantes nitrogenados são importantes pois, na sua síntese, utilizam grandes quantidades de gás natural, ou seja, emitem elevadas quantidades de CO? na sua produção.
Na cana-de-açúcar, por exemplo, estudos mostraram que 25% da energia gasta para produzir a cultura de campo são relativas aos fertilizantes nitrogenados. Em toda a cadeia de produção do etanol até 40% das emissões de gases de efeito estufa provêm do uso de fertilizantes nitrogenados, dependendo da quantidade de N?O que é emitida no campo. Daí se conclui que o uso de fertilizantes nitrogenados tem grande importância no balanço de energia e de emissões da produção deste biocombustível.
Estima-se que existam 750 gigatoneladas de carbono no ar e uma pequena variação nessa quantidade de CO? é que está promovendo o aquecimento global. O estoque de carbono na vegetação é de 560 gigatoneladas, ou seja, menos do que o encontrado na atmosfera.
No solo, a camada de 0 a 1 metro, tem 1.700 gigatoneladas, o que representa duas vezes mais do que na atmosfera. A partir desses dados, é possível imaginar o impacto da destruição da matéria orgânica do solo sobre as concentrações de CO? da atmosfera.
Esses números chamam a atenção para a importância da ciência do solo nessa questão do aquecimento global: o manejo incorreto do solo, que ocasiona perda de matéria orgânica pode aumentar a concentração de CO2 na atmosfera; por outro lado, o solo pode ser um fator mitigador do aquecimento global se o manejo correto levar ao acúmulo de matéria orgânica “O aumento de carbono no solo, em função de manejo, depende das condições de solo e clima de cada local”, afirma.
O secretário Arnaldo Jardim destacou a importância do setor para o agronegócio, sendo a maior produção agrícola paulista, e afirmou que a Secretaria vem desenvolvendo, por meio dos institutos da Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio (APTA), pesquisas para a melhoria das cultivares e da produtividade agrícola da cana-de-açúcar, especialmente o sistema de Mudas Pré-Brotadas de cana-de-açúcar (MPB), que já conta com uma linha de financiamento do Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (Feap).
“Estamos falando de um setor formidável, capaz de crescer com inovação e tecnologia, com melhoramento genético, novas técnicas de plantio e manejo do solo, aperfeiçoamento dos tratos culturais e evolução da colheita”, diz Arnaldo Jardim.
 
Futuro
As pesquisas se voltam também para a produção de etanol de celulose. Atualmente, são produzidos cerca de 7.000 litros de etanol, por hectare de cana-de-açúcar, e a meta, para dez anos, é chegar a produzir 12.000 litros. Isso será possível se a palha for utilizada também para produzir etanol celulose, já que 1/3 da energia da planta de cana-de-açúcar está na palha, que hoje, é deixada no campo para proteger o solo. Este sistema é bom. Porém, há grande atrativo econômico para usar essa palha. Provavelmente, no futuro, pelo menos parte desse material será usada para produzir eletricidade ou, quando a tecnologia de etanol de 2ª geração estiver mais desenvolvida, produzir o etanol de celulose.
Pensando no benefício da ciclagem dos nutrientes, não apenas na cobertura dos solos provida pela palha, o melhor é deixar o ponteiro no solo e recolher as folhas secas dos restos de colheita. Isto porque estão no ponteiro 61% do nitrogênio, 78% do fósforo e 75% do potássio contidos na palhada e a quantidade de celulose é ligeiramente maior nas folhas secas. O ideal seria recolher as folhas secas para produzir bioenergia e deixar os ponteiros no chão. Isso do ponto de vista técnico. Porém, o desafio é a tecnológica: como fazer isso? “Nessa questão entram os engenheiros agrícolas e os produtores de máquinas, que devem estudar soluções para viabilizar essa alternativa”, afirma Cantarella.
O processo produtivo desenvolvido e aprimorado no Brasil prevê substancial reciclagem dos resíduos da indústria de bioenergia, incluindo vinhaça, torta de filtro e cinzas, permitindo, dessa forma, reutilizar boa parte desses nutrientes e ainda adicionar carbono orgânico para melhorar a fertilidade do solo, reduzindo, assim, o aporte de nutrientes e o impacto ambiental.
“A sustentabilidade dos biocombustíveis tem uma interface muito grande com a ciência do solo e com a agronomia de modo geral, exigindo que os profissionais dessas áreas gerem informações para a correta avaliação das emissões de gases de efeito estufa e dos impactos ambientais do sistema de produção”, resumiu o pesquisador. 

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