O que impacta no Brasil e no mundo a autorização da Índia para venda de etanol

Benefícios envolvem conhecimento brasileiro e redução de impactos ambientais ao usar o combustível verde

Marcos Guimarães de Andrade Landell, pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) e líder do Programa Cana IAC, comenta o possível impacto no setor sucroenergético brasileiro e mundial da autorização da Índia referente à venda de etanol dos postos de combustíveis daquele país.  Landell conversou sobre o tema com três grandes especialistas brasileiros, Plínio Nastari, da Datagro, Luíz Carlos Corrêa Carvalho, diretor da Canaplan, e Eduardo Romão, vice-presidente da ORPLANA e presidente da WABCG (World Association Beet and Cane Growers).

O uso do etanol pelos indianos fará com que os produtores daquele país tenham uma nova opção para a utilização da matéria-prima - cana-de-açúcar. Esse novo cenário provavelmente demandará o conhecimento dos técnicos e pesquisadores brasileiros. A expertise nacional vem sendo acumulada desde a década de setenta, quando foi criado o Programa Brasileiro de Álcool (PROALCOOL).

Atualmente, 100% da cana-de-açúcar cultivada na Índia é transformada em açúcar, colocado no mercado interno e mundial. O volume gera impactos muito grandes devido à área muito significativa de cana indiana, perto da metade do que o Brasil possui. Lá há 4,7 milhões de hectares cultivados por, aproximadamente, 53 milhões de pequenos produtores. No território brasileiro, são cerca de nove milhões de hectares. Quando o açúcar indiano entra no mercado, o produto desestabiliza o preço internacional. O resultado é uma série de reflexos negativos internos no Brasil, como a redução do preço da cana e, consequentemente, a desestabilização dos canavicultores brasileiros, que não contam com subsídios agrícolas como é o caso dos indianos.

Esse novo contexto deve criar um poder tampão na produção de açúcar mundial, eficaz para reduzir colapsos de preços. Essas dezenas de milhões de produtores indianos conduzem a sua canavicultura de modo muito manual: o corte é manual, o carregamento é manual, às vezes em carro de boi. É tudo muito antigo, como se fosse a atividade no Brasil de um século atrás. As variedades indianas têm menor longevidade que as adotadas nos canaviais brasileiros e isso gera uma dinâmica de plantio e reforma de canaviais muito mais “agitada”, impedindo uma melhor previsão de cenários a médio prazo para o açúcar no cenário mundial.

Os programas de melhoramento brasileiros têm investido muito em variedades longevas, com alta capacidade de brotação e permanência do canavial durante vários anos. Na Índia os canaviais têm duração de dois a três cortes só. Assim sendo, quando o preço do açúcar está ruim, é comum aqueles pequeníssimos canavicultores abandonarem essa atividade por algum tempo. Eles a retomam quando voltam a ver vantagens do preço de comercialização do açúcar ou mesmo via o incentivo de subsídios do governo da Índia. Essas convulsões de aumento e redução de produção de açúcar a Índia vive há décadas e se dá por conta desse cenário: produtores muito pequenos que, quando ficam desmotivados com a cana, deixam de plantá-la. Assim ninguém consegue fazer uma boa previsão da produção, o que afeta todo o mercado mundial. Essa é uma das características da canavicultura indiana: manual, precária, antiga, mas com grande disponibilidade de mão de obra.

Será muito bom que a Índia tenha etanol porque poderão dividir a produção da cana e passar a ter pelo menos dois caminhos para a industrialização. Uma é continuar fazendo açúcar e a outra é produzir etanol. Ao usá-lo puro, como se faz no Brasil, com a bomba só de etanol nos postos de combustíveis, irá gerar oportunidade para o carro flex ou algumas outras formas, o carro híbrido, por exemplo. Porém, primeiro, eles vão ter que montar essas indústrias de etanol. Essa necessidade pode gerar oportunidades para a indústria brasileira, que tem grande conhecimento na produção e instalação de equipamentos de indústria de etanol. Outro aspecto muito positivo é a população indiana de 1,4 bilhão de pessoas, que passa a ter o etanol como parte de suas vidas, possivelmente na utilização da mistura do combustível com 20% de etanol. Isso deverá trazer como consequência positiva a redução dos poluentes naquela região do mundo. E uma parte desse etanol vai ser usado diretamente, com baixíssimo impacto ambiental.

A adoção do etanol na Índia, portanto, é positiva: primeiro porque devem aproveitar a expertise brasileira na área de indústria e na área agrícola. Isso abre mercados para o Brasil em produtos e serviços. Segundo porque, ao passarem a ter o etanol, será reduzida a pressão sobre a produção de açúcar.

Essa decisão do governo da Índia foi, de certa forma, construída ao longo dos últimos três ou quatro anos e contou com brasileiros. Plínio Nastari, desde 2018, tem visitado a Índia e conversado com o governo indiano e autoridades na área de energia da Índia. Nastari tem mostrado as vantagens do etanol, como a mitigação dos danos do combustível fóssil. Foi um trabalho de convencimento. O que está sendo criado lá é semelhante ao PROALCOOL. O governo indiano irá, provavelmente, estimular a produção de açúcar, visto que se trata de um programa social naquela nação.

 

 

 

 

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