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O Agronômico



O Agronômico, 51(1), 1999

CONSORCIAÇÃO DE SERINGUEIRA COM CULTURAS DE IMPORTÂNCIA ECONÔMICA

Em seringais recém-implantados, principalmente em pequenas propriedades, o uso uso de cultura intercalar pode ser uma saída para complementar a renda do produtor. A consorciação com culturas anuais deve ser feita no início do desenvolvimento do seringal, sendo que qualquer cultura pode ser utilizada nas entrelinhas da seringueira, desde que não hospedem pragas e doenças que possam infestar o seringal e a competição entre as duas espécies não prejudique o desenvolvimento da cultura principal. 

Muitas são as vantagens da utilização de uma cultura intercalar, sendo, a redução do período de imaturidade das plantas e a diminuição dos custos de implantação do seringal, devido a renda extra conseguida pelo produtor na mesma área de cultivo, as vantagens mais atrativas quando se pensa na implantação de um sistema agroflorestal. Dependendo do desenvolvimento do seringal, até o terceiro ou quarto ano existe luminosidade suficiente nas entrelinhas, permitindo o cultivo de alguma cultura intercalar. 

O presente trabalho objetiva divulgar as diversas técnicas existentes, agrupando as alternativas capazes de tornar o sistema produtivo mais rentável. 


Importância da consorciação

Por muitos anos, a pesquisa tem direcionado esforços para o conhecimento da importância da cobertura do solo, seja qual for a técnica utilizada: cobertura vegetal com leguminosas ou o plantio intercalar de um cultura anual, perene ou semi-perene. 

Segundo Cardoso et al. (1988), o uso de culturas intercalares em seringais é uma forma racional de ocupação das entrelinhas. No Estado de São Paulo, a maior parte do solo sob seringais fica desprotegida durante todo o período de imaturidade da cultura, aumentando os riscos de erosão e dificultando os trabalhos de manutenção. 

As vantagens da prática da consorciação, seja com culturas anuais ou perenes são: melhor distribuição da renda ao longo do ano; melhor utilização da mão-de-obra; menor incidência de pragas e doenças; uso mais intenso e racional da terra; e maior lucro por unidade de área (Fancelli ,1986). 

A consorciação de plantas que apresentam ciclos vegetativos distintos pode representar uma das mais importantes formas de complementariedade pois tal associação, na maioria das vezes, proporciona melhor uso temporal dos fatores de produção (Bernardes & Fancelli, 1988), cujo excedente produzido pode complementar a renda do produtor (Blencowe, 1989). Mas, para que se consiga sucesso na consorciação, é necessário seguir alguns parâmetros na escolha das espécies a serem consorciadas, como aqueles relacionados às suas estruturas vegetativas não conflitantes (raízes e parte aérea), características fisiológicas complementares, período de máxima exigência por fatores de produção não coincidentes e compatibilidade sanitária entre as espécies envolvidas (Fancelli, 1986), além de plena adaptação à região e valor econômico atraente (Fancelli, 1990). 

Segundo Costa & Medrado (1990) algumas desvantagens devem ser conhecidas, pois podem diminuir as possibilidades de uso da técnica, sendo elas: existência de competição por água, luz e nutrientes que pode restringir o desenvolvimento da seringueira, principalmente se o manejo do consórcio não for bem planejado; as plantas cultivadas nas entrelinhas podem servir como hospedeiro intermediário de pragas e doenças da seringueira e pode haver uma alteração do microclima, tornando-o mais próprio para o estabelecimento de doenças fúngicas. 

Segundo Pereira et al. (1998), em um amplo estudo desenvolvido no consórcio entre a cultura do café e a seringueira, a escolha da espécie que será plantada nas entrelinhas da seringueira é de extrema importância e deve obedecer aos seguintes preceitos: 

  1. Proporção em relação às seringueiras;

  2. Adaptação às condições edafoclimáticas do local;

  3. Deve suportar certo grau de sombreamento promovido pelo seringal, principalmente quando a cultura intercalar for plantada de forma perene ou quando as plantas de seringueira já apresentarem um crescimento elevado;

  4. Obedecer à uma distância mínima das plantas de seringueira para facilitar os tratos culturais, principalmente mecanizados;

  5. Compatibilidade vegetativa e fitossanitária entre as espécies, assim como não deve haver efeito alelopático;

  6. Em certas situações, dependendo da espécie consorciada no seringal, é necessário diminuir o sombreamento das entrelinhas. Isso é feito alterando o espaçamento da cultura principal. As seringueiras podem ser plantadas em filas duplas de 4 x 3 m, espaçadas de 10 a 12 m entre si, correspondendo a mesma densidade de plantio quando comparado ao plantio em fileiras simples. Com isso, a luminosidade nas entrelinhas é maior, aumentando a vida útil de exploração da cultura intercalar;

  7. A orientação do talhão de ser feita no sentido leste-oeste, pois dessa forma o sol percorre a copa das plantas durante todo o dia.

  8. Quando o excesso de sombra não permitir a exploração de uma cultura intercalar é possível instalar o chamado sistema silvopastoril, ou seja, dentro de um talhão de seringueiras pode-se manejar animais como carneiros, aves e bovinos

Algumas propriedades da região oeste de São Paulo tem criado carneiros lanados (figura 1) dentro dos seringais, visando o controle do mato. Essa exploração pode ser recomendada, pois os animais não danificam o tronco da seringueira e possibilitam reduzir os custos de manutenção do seringal, diminuindo a necessidade de capinas e a aplicação de herbicidas. 


Consorciação com culturas perenes e semiperenes

Algumas culturas têm sido recomendadas para o cultivo intercalar com a seringueira como o cacau, guaraná, pimenta-do-reino, maracujá, mamão e banana. Chandrasekara (1984) estudou o efeito sobre o crescimento em circunferência de plantas de seringueira em sistema de consorciação com as culturas de banana, café e maracujá, durante o período de imaturidade do seringal. Não foram observadas diferenças significativas no crescimento do seringal em relação à testemunha (sem consorciação), no cultivo com as diferentes culturas intercalares. O sistema é viável até o terceiro ano de implantação do seringal. Para essas culturas, recomenda-se o plantio de uma única linha no espaço entre as linhas da seringueira. 

Abacaxi. Essa espécie é propagada vegetativamente por meio de mudas produzidas pela planta, como filhotes (da base do fruto), rebentões (do talo da planta) ou mesmo as coroas dos frutos que são destinados à indústria. É classificada como uma planta semi-perene. Recomenda-se apenas um ciclo de exploração em cada lavoura (14 a 24 meses), com a produção de apenas um fruto por planta, devido à ocorrência de infestação por Fusarium, causador de grandes prejuízos a lavoura (Spironello & Teixeira, 1998). 

Rajasekharan (1989) realizou um estudo sobre a viabilidade da consorciação entre abacaxi (Ananas comosus (L.) Merril) e seringueira durante os três primeiros anos da implantação do seringal (Figura 2). O autor utilizou uma população de plantas de 4.565 plantas/ha, conseguindo um rendimento de 31 t de frutos no primeiro ano de exploração. O custo de fertilização do sistema representou apenas 16,36 % do custo total e o custo de capinas e desbrotas representou 14,04 %. Observou-se um melhor crescimento das plantas de abacaxi consorciadas quando comparado com o plantio convencional. Poucos são os agricultores que cultivam a espécie por mais de três anos após a implantação do seringal, pois à partir dessa época o dossel começa sombrear as entrelinhas. 

Recomenda-se o plantio de 1 a 4 ruas de abacaxi intercalando as linhas do seringal (Figura 3), espaçadas de 45 cm entre linhas por 7 cm entre plantas, em linhas duplas distanciadas de 1 m, para permitir os tratos culturais. Com quatro ruas de abacaxi, consegue-se uma população de 9.400 plantas/ha (Chandrasekara, 1984). O autor observou maior circunferência das plantas de seringueira com um maior número de ruas de abacaxi, provavelmente devido ao efeito residual da adubação das entrelinhas. 


Mandioca. Culturas caracterizadas pela sua agressividade e pelo seu elevado porte, como mandioca, milho, guandu e girassol, não devem ser plantadas no primeiro ano de formação do seringal pois podem competir excessivamente com a cultura principal. No primeiro ano, recomenda-se o plantio de culturas de menor porte como o arroz, seguida da implantação de mandioca no segundo ano (Fancelli, 1990). Além disso, existem pragas de incidência comum como o mandarová Erynnyis ello, considerado como uma das principais pragas da mandioca e da seringueira (Vendramin et al., 1985), não podendo ser indiscriminadamente recomendada. Além disso, a mandioca pode ser hospedeira de fungos (Leptoporus lignoselus e Leptoporus maxiu), conforme citação de Fialho (1982). 

Banana. Deve ser plantada até o segundo ano de desenvolvimento da cultura principal. Na Malásia, a banana é o produto tido como mais popular na consorciação pois o uso de mão-de-obra não é tão intenso (Blencowe, 1989). O plantio de banana como cultura intercalar deve ser muito bem planejado, caso contrário, pode haver um retardamento no desenvolvimento da seringueira, aumentando o período de imaturidade. Fancelli (1986) recomenda plantar duas linhas de banana nas entrelinhas da seringueira, espaçadas de 1,30 m entre si, com 1,70 m entre plantas na linha, mantendo a distância de 2,65 m da linha de seringueira. Zagbahi et al. (1990) citam a exploração da cultura intercalar em seringais da Malásia, Indonésia e Tailândia. 

Pimenta-do-reino. É uma das espécies que apresentam um curto período de imaturidade, iniciando a produção comercial a partir do segundo ano. No entanto, a pimenta-do-reino (Piper nigrum) é muito susceptível ao fungo Fusarium solani f. sp. piperi (podridão das raízes), causador de grandes danos à cultura, reduzindo o período útil de exploração da cultura para apenas quatro anos. Quando é plantada em condições de maior sombreamento, há uma queda nos danos provocados pelo patógeno prolongando a vida da plantação. Isso ocorre pois há uma alteração no ambiente, desfavorecendo o ciclo do fungo (Pereira et al., 1997). 

Além de um melhor ambiente para o crescimento das plantas de pimenta, a seringueira tem se beneficiado do consórcio, demonstrando uma produção mais elevada quando comparada com o cultivo solteiro. Ocorre uma sensível redução do período de imaturidade do seringal, pois a seringueira aproveita a adubação fornecida às pimenteiras, tendo o seu desenvolvimento é acelerado. Para que os efeitos da competição sejam controlados, as pimenteiras devem estar afastadas de 2 a 2,5 m das linhas de seringueira (Viegas et al., 1980). 

Fialho (1982) constatou no Estado do Amazonas a presença de Phytophthora e da mosca branca Aleurodicus cocois na pimenta-do-reino, sendo organismos também considerados prejudiciais à seringueira. 

Andrade et al. (1980) estudando as interações da consorciação da seringueira com a pimenta-do-reino, concluíram que esta deve ser plantada no espaçamento 3,0 x 2,5 m nas entrelinhas da seringueira, quando esta última é plantada em linhas simples, espaçadas de 14,0 m entre linhas e 3,0 m entre plantas. Os autores relataram que foi possível uma boa rentabilidade do quinto ao décimo segundo ano de exploração do sistema. 

Cunha et al. (1988) estudando diversos espaçamentos de pimenteira, obtiveram maiores rendimentos nas densidades de 667 a 889 pimenteiras/ha e 392 a 513 seringueiras/ha, com 3 – 4 linhas de pimenteiras distanciadas em 2,0; 2,5 ou 3,0 m das linhas de seringueira. Os autores relataram que a renda proveniente das pimenteiras pagou, no quinto ano de cultivo, os custos de implantação do seringal, além de reduzir para seis anos o período de imaturidade do clone plantado. 

Palmitos. Entre as espécies produtoras de palmito com potencial para a consorciação com a seringueira, Pereira et.al. (1997) citam o palmiteiro ou juçara (Euterpe edulis), o açaizeiro (Euterpe oleraceae) e a pupunheira (Bactris gasipaes). 

O palmiteiro é considerado uma espécie umbrófila ou seja, é bem adaptada às condições de baixa luminosidade, porém seu ciclo de desenvolvimento é longo e cada planta produz apenas um único palmito. Segundo Bovi et al. (1990) a produção de palmito consorciada com a seringueira apresentou diferenças significativas nas densidades de plantio estudadas, variando de 133 g a 414 g de palmito/planta, para os espaçamentos entre 1 x 1 m e 2 x 2 m, respectivamente. A produção de palmito por área variou de 1.033 a 1.612 kg/ha, havendo uma diminuição da mesma com o aumento da área por planta. 

Pereira et al. (1997) recomendam na consorciação com seringueira o plantio da pupunha por ser uma palmeira que apresenta rápido crescimento, tem capacidade de perfilhamento permitindo inúmeras safras de palmito e apresenta precocidade, conseguindo o primeiro corte em 18 a 24 meses após a implantação, enquanto o palmiteiro (juçara) e o açaizeiro (figura 4) levam de seis a doze anos. Como a pupunheira necessita de alta luminosidade para o seu desenvolvimento, o plantio da seringueira deve ser em linhas duplas, no espaçamento de 4,0 x 2,5 m, espaçadas em 12 m entre si, perfazendo 3.125 pupunheiras/ha (5 linhas de pupunha espaçadas de 2 x 1 m na entrelinha da seringueira) e 500 plantas de seringueira/ha. 

Café. A consorciação café-seringueira apresenta basicamente dois esquemas distintos. No primeiro a seringueira é utilizada na substituição de cafezais em decadência de forma gradual, sendo preliminarmente favorecida pelo efeito de quebra-vento e sombreamento controlado, devido a presença das plantas de café. O plantio de seringueira em substituição ao café deve ser feito em ruas alternadas colocando as mudas na projeção da copa da planta de café. No segundo esquema, o café é plantado temporariamente como intercalar até a formação do seringal implantado, nos espaçamentos convencionais (7-8 m entre linhas e 2,5 a 3,0 m entre plantas). No entanto, as plantas de seringueira sombreiam rapidamente as entrelinhas, limitando demasiadamente o desenvolvimento do café, principalmente após o quarto ano. O cafeeiro deve ser plantado no sistema adensado, nos espaçamentos de 1,5 a 2,0 m por 0,5 a 1,0 m, respeitando um afastamento mínimo de 1,5 m em relação às linhas de seringueira. Outras disposições do seringal podem ser planejadas, seja em linhas simples de 10 x 2,5 m, 12 x 2,5 m, ou em linhas duplas de 4 x 3 m, 4 x 2,5 m ou 5 x 2,5 m, espaçadas de 10 a 12 m entre si, visando aumentar a vida útil do cafezal. Nesse sistema, é possível a colheita de três a quatro safras de café (Pereira et al., 1997). 

É possível planejar a implantação do consórcio em sistema permanente de exploração, conhecido como plantio em renque. Os renques devem ser espaçados entre si de 20 a 25 m, ou até 100 m. Cada renque pode ser composto por linhas simples de seringueiras, espaçadas de 2,5 a 3,0 m entre plantas, ou linhas duplas, no espaçamento de 4,0 x 3,0 m, 4,0 x 2,5 m ou 5,0 x 2,5 m (Matiello et al., 1985 citado por Pereira et al., 1997). 

Segundo Pereira et al. (1998) existem muitos efeitos benéficos sobre as plantas de café quando consorciadas com seringueira. Entre estes destacam-se: produção de internódios mais longos, essencial para produção de frutos de melhor qualidade; produção de frutos de maior tamanho; microclima mais ameno ao cafeeiro, mantendo um ambiente favorável à produção com temperatura noturna mais alta e diurna mais baixa; redução do ciclo bienal; menor incidência da seca dos ponteiros, devido ao microclima favorável; aumento do número de ramos plagiotrópicos primários e secundários, ampliando a capacidade produtiva do cafeeiro. No entanto, as duas espécies apresentam problemas com nematóides do gênero Meloidogyne, sendo necessário cuidado na escolha da área de plantio e atenção especial à qualidade das mudas (Pereira et al., 1997). 

Citros. As plantas de seringueira e de citros necessitam de grande disponibilidade de luz para o crescimento e produção. Portanto, a consorciação destas plantas deve obedecer a um espaçamento mais rigoroso para o atendimento desta necessidade, conforme Bernardes & Fancelli (1988). Entretanto, para que se possa recomendar a consorciação entre as duas espécies é necessário o conhecimento da ocorrência de patógenos comuns. Os autores relatam a infestação por Phytophthora spp. (gomose dos citros e cancro estriado ou requeima da seringueira); Corticium salmonicolor (rubelose); Thanathephorus cucumeris (mancha aureolada) e Colletotrichum spp. (antracnose) que ocorrem nas duas culturas. 

Uma das vantagens da consorciação da seringueira com citros, segundo Bernardes & Fancelli (1988), é que ambas as culturas adaptam-se ao mesmo tipo de solo e a área de aptidão climática no Estado de São Paulo, abrangendo quase que totalmente as regiões com aptidão para a citricultura, possibilitando dessa forma a intercalação das duas espécies. Além disso, o uso de citros nos primeiros anos reduz os custos de formação do seringal através da produção obtida a partir do 3º ano do plantio de citros. Nesse sistema de consórcio, a seringueira é plantada em espaçamento de linhas duplas distanciadas em 4 m entre si e 2,5 m entre plantas, sendo cada conjunto de linhas duplas distantes 12 m entre si. 

Bernardes & Fancelli (1988) recomendam utilizar a espécie cítrica plantada em linha simples entre as fileiras duplas de seringueira, resultando em 500 plantas de seringueira/ha e 178 plantas de citros/ha. Deve-se planejar a exploração das plantas de citros por apenas 7 – 8 anos na área, ou seja, produção normal do terceiro ao quinto ano (3 safras) e produção declinante do sexto ao sétimo ano, devido ao sombreamento. O sistema se completa com a produção de seringueira a partir do oitavo ano de implantação das duas culturas, tão logo se encerre o período produtivo do citros, sendo que após esta última safra a cultura já pode ser eliminada. 

Cacau. A cultura do cacaueiro com arborização constitui um dos mais conhecidos e bem sucedidos exemplos de sistemas silvoagrícolas. Entretanto, pode ocorrer incompatibilidade fitossanitária entre as duas espécies, devido ao ataque de Phytophthora sp (Pereira et al., 1997). O plantio de cacaueiros nas entrelinhas da seringueira cria um microclima mais favorável ao desenvolvimento das plantas de cacau, devido à proteção contra ventos e efeito de sombreamento. 

Tanto o cacaueiro como a seringueira são plantas de ciclo longo (ao redor de 30 anos) e requerem um investimento elevado para a implantação. Logo, o plantio convencional de cacau nas entrelinhas de seringueira deve ser muito bem avaliado quanto a sua viabilidade. Segundo Medrado et al. (1994), após um longo estudo de espaçamentos entre as duas culturas, as plantas de cacau favoreceram o desenvolvimento inicial do seringal, decorrente do seu efeito de proteção, e a combinação de espaçamentos com melhor resultado foi de 3,5 x 3,0 m para o cacau entre as linhas duplas de seringueira distanciadas de 10,5 m entre cada uma delas (3 linhas de cacau), no espaçamento de 7 x 3 m na linha dupla de seringueira. Observou-se que quanto maior o espaçamento nas entrelinhas das linhas duplas, maior foi o rendimento alcançado pelas plantas de cacau, devido à maior luminosidade, assim como o período produtivo das plantas foi mais longo. Muitas outras combinações de espaçamentos têm sido pesquisadas visando a otimização no desenvolvimento das duas espécies. 


Consorciação com cultura anuais

Milho, arroz, feijão, melancia, algumas hortaliças, batata-doce, amendoim e soja são culturas anuais que podem ser utilizadas em consorciação com a seringueira no início de desenvolvimento do seringal. O amendoim e a soja devem preencher toda a entrelinha até 1 m das plantas de seringueira, para evitar uma competição prejudicial entre as duas espécies. Zagbahi et al. (1990) relataram a possibilidade de cultivo de milho, mantendo a mesma distância mínima citada por outros autores. Essa faixa livre deve ser ampliada em função do desenvolvimento das árvores, ou seja, no segundo ano a faixa deve ser entre 1,5 e 2,0 m e, à partir do terceiro ano de implantação, entre 2,5 e 3,0 m. para diminuir a competição entre as duas espécies e possibilitar o manejo da cultura intercalar. 

Na implantação de uma cultura intercalar anual deve-se dar preferência para culturas de porte baixo, como feijão e amendoim, para não competir demasiadamente com as plantas de seringueira. Segundo Fancelli (1990), o plantio dessas culturas reduz o período de imaturidade do seringal, devido ao maior desenvolvimento do caule em diâmetro, antecipando o início da explotação do seringal. 

O comportamento da consorciação de arroz, soja, milho (figura 5), e amendoim com seringueira, até o quarto ano da implantação do seringal foi estudado por Laosuwan et al.(1988). Os autores obtiveram rendimentos de 1.208 e 1.152 kg/ha para soja e amendoim, enquanto que, para o arroz e milho, o rendimento foi de 2.139 e 2.962 kg/ha, respectivamente. 

Keli et al. (1991) não verificaram mudanças significativas na fertilidade original do seringal, quando as entrelinhas foram cultivadas com alguma cultura intercalar durante três anos de exploração do sistema, não havendo redução do vigor das plantas de seringueira. O mesmo foi observado por Obouayeba (1992) estudando a consorciação de algumas culturas econômicas com seringueira, por dois anos de cultivo. 

O sistema agroflorestal (SAF) entre a seringueira e soja é comumente utilizado no Brasil. No entanto, os efeitos da interação entre as duas culturas não são muito bem conhecidos. Devido ao sombreamento, que altera o balanço de água da soja, há uma redução do rendimento da cultura. Logo, a competição entre as duas espécies pode inviabilizar o plantio intercalar mais pelo efeito do sombreamento do que pela interação de raízes no solo (Bernardes et al., 1997). 

Em áreas com extensas plantações de soja, o plantio do feijão nas entrelinhas do seringal torna-se problemático pela incidência da mosca branca Bemisia tabaci, inseto vetor do vírus do mosaico dourado do feijoeiro, que se hospeda nas plantas de soja (Fancelli, 1990). 



Considerações Finais

A cultura da seringueira tem um período de imaturidade considerado longo, mas de extrema importância para a produção futura das árvores. Normalmente, em seringais bem conduzidos e implantados com mudas de qualidade, as árvores estão aptas para início da explotação aos seis anos de idade. Durante esse período a comunidade permanece totalmente sujeita às intempéries, como a erosão, além da rápida infestação por plantas daninhas, prejudicando o desenvolvimento do seringal. Logo, é possível explorar uma cultura intercalar entre as linhas de seringueira, aproveitando melhor a área e os fatores de produção. Para isso, é preciso conhecer a fenologia, necessidades nutricionais e o hábito de crescimento de ambas as espécies, pois pode haver uma excessiva competição por água, luz e nutrientes, caso o planejamento não seja bem executado, prejudicando o desenvolvimento da cultura principal. Muitas pesquisas têm produzido resultados favoráveis à consorciação, seja com culturas anuais (soja, mandioca, feijão, milho, amendoim, etc.), perenes (palmito, cacau, café, citros e pimenta-do-reino) ou semiperenes (banana, maracujá, mamão, abacaxi, etc.), sempre obedecendo a certas normas técnicas para propiciar um bom rendimento como, por exemplo, o melhor espaçamento, distribuição espacial das plantas e o afastamento mínimo mantido entre a cultura intercalar e as linhas de seringueira. Com o crescimento do seringal, o sombreamento começa a prejudicar o desenvolvimento da cultura intercalar. Logo, deve-se planejar um sistema, com espaçamentos maiores entre as linhas de seringueira, de forma a aumentar a luminosidade que atravessa a copa das plantas de seringueira. 

Portanto, quando bem manejada, a consorciação é um sistema excelente, pois a renda obtida com a cultura complementar poderá pagar uma parte ou a totalidade dos custos de implantação do seringal. 


Agradecimentos

Os autores agradecem ao Engº. Agr. Reinaldo Tateyama pela presteza na realização dos trabalhos de edição gráfica das figuras. 


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SÃO PAULO É O MAIOR PRODUTOR BRASILEIRO DE BORRACHA NATURAL

O Estado de São Paulo possui, atualmente, cerca de 43 mil hectares plantados com seringueira, abrangendo mais de 2.400 heveicultores, ou seja, u’a média de 17,9 ha por propriedade. Dos 43 mil hectares somente 24 mil encontram-se em fase de produção. Os 19 mil hectares restantes constituem-se de seringais novos. Várias regiões do Estado são aptas à heveicultura, sendo mais conhecidas as de São José do Rio Preto, Barretos, General Salgado, Catanduva, Marília, Votuporanga e Tupã. Todas estão situadas no Planalto Ocidental do Estado, englobando 90 % da área plantada, onde se situa a região de cultivo mais importante. Quarenta e cinco por cento da área com seringueira têm grande potencial de cultivo, notadamente pelas condições climáticas que minimizam o risco de insucesso.

Com uma produção estimada, em 1999, de 38 mil toneladas (Figura 1), o Estado de São Paulo é líder na produção nacional de borracha vegetal contribuindo com 50 % da produção nacional (Figura 2). Os seringais paulistas são os mais produtivos do Brasil, com produtividade média superior a 1.200 kg de borracha/ha/ano, sendo que, nas áreas em que há maior conhecimento tecnológico, a produtividade é superior a 1.500 kg/ha/ano. Esta produtividade média coloca o Estado de São Paulo entre os mais produtivos do mundo, em comparação com as médias dos três principais países produtores: Tailândia (1.100 kg/ha/ano), Indonésia (750 kg/ha/ano) e Malásia (900 kg/ha/ano).

André May1, Paulo de Souza Gonçalves2 e Afonso Pedro Brioschi3 

1 e 2Instituto Agronômico, Centro de Café e Plantas Tropicais. 1Bolsista da FAPESP 

3CATI, Escritório de Desenvolvimento Rural de Presidente Prudente, 19100-000 Presidente Prudente 

2Fax: (19) 241-5188 Ramal 322 



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