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Acervo histórico IAC

Acervo raro acompanha a modernização da urbe

Filho de ex-fotógrafo do IAC organizou registros inéditos até em arquivos públicos

Rogério Verzignasse da Agência Anhanguera
rogerio@rac.com.br


O cosmonauta Yuri Gagarin se curvou para ver as mudas de café. Quem estava por perto, esticou o pescoço para não perder o momento histórico. Afinal de contas, o primeiro homem a ficar em órbita da Terra visitava o Instituto Agronômico de Campinas.

O episódio, na década de 60, parou a cidade. O russo simbolizava a milionária corrida espacial da década de 60. Ele, a bordo da astronave Vostok I, entrou para a história ao afirmar encantado, lá de cima, que a Terra era azul.

Mas, para Campinas, a visita tinha outra importância. A presença de Gagarin representava o reconhecimento da comunidade científica mundial para a pesquisa de excelência desenvolvida por aqui.

O que as novas gerações não imaginam é que cada instante da visita ficou gravado para a posteridade. Dezenas de fotos são guardadas a sete chaves no armário de Rogério Maciel.

O campineiro, de 64 anos, meteu a cara no mundo para ganhar a vida. Trabalhou como feirante, montando bancas e carregando caixas de maçã. Depois, viveu mais de uma década na beira do rio procurando ouro, lá em Minas. O aventureiro é pai do advogado Pedro Maciel Neto, que, na década passada, entrou na política e tentou ser prefeito de Campinas.

As fotos históricas, que valem como diamantes do velho garimpo, foram tiradas por Pedro Benedicto Maciel (pai de Rogério e avô de Pedro).

"Seo" Pedrinho foi funcionário do IAC de 1936 a 1969. Ele criou o centro de documentação histórico sobre as pesquisas. O acervo fantástico, composto também por imagens flagradas por outros profissionais do instituto, mostra aldeias africanas durante as expedições científicas do IAC. Há presidentes e pesquisadores do mundo inteiro subindo os degraus do saguão. Sobram paisagens de cafezais imensos, cobrindo roças do Interior.

Mas a coleção guardada por Rogério Maciel é composta de imagens raras, inéditas até para revistas científicas, arquivos públicos ou de jornais. Seo Pedrinho testemunhou a construção de Campinas. Em pouco mais de três décadas, ele clicou a cidadezinha virando metrópole.

Entre as "chapas" , está aquela em que tratores escavam o barranco para abrir a segunda pista da Av. Brasil. Ou a construção da sede do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital).

Há preciosidades como uma imagem originalmente clicada em 1908: um lavrador posa no meio da plantação de sorgo, na Fazenda Santa Elisa. Pedrinho encontrou a foto, a reproduziu e a incluiu no acervo do centro de memória.

Ele registrou com uma câmara estroboscópica o desabrochar de um flor do cafezal. Caso raro do registro seqüencial de imagens num tempo em que a tecnologia engatinhava.

O fotógrafo, contam os emocionados descendentes, um mineiro de Frutal que se mudou para Campinas na adolescência, trabalhou como ajudante de balcão na Sorveteria Sônia e entrou como office-boy no IAC. Lá dentro, se interessou pelo trabalho do fotógrafo, pediu para aprender e mergulhou na carreira que nunca mais largou. Virou chefe.

Acostumado às andanças pelo planeta, ao lado de feras como o pesquisador Alcides Carvalho (que era recebido em universidades e palácios de qualquer lugar), Pedrinho
circulava entre os famosos sem a menor cerimônia.

O vestido da rainha

Espirituoso que só ele, acabou sendo protagonista de um episódio hilário. Em 1968, ele fotografava a visita, ao IAC, da rainha Elizabeth. A soberana inglesa, cercada de brutamontes armados, desfilava intocável pelo saguão. Os reles mortais nem sonhavam se aproximar.

"O fotógrafo Pedrinho foi se enfiando no grupo, dando um chega pra lá nos gigantes da segurança, e chegou na frente da rainha" , conta Rogério, que garotinho trabalhava carregando os equipamentos do pai. "Aí, na maior cara-de-pau, ele arrumou com a própria mão o vestido da rainha, que estava torto."

Poucas vezes o mundo viu semelhante quebra de protocolo. Mas a rainha, conta Rogério Maciel, achou o atrevimento engraçado. Sorriu e agradeceu
a "ajeitadinha" com um sinal de positivo com a
cabeça.



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