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Agronômico, 51(2/3), 1999
Transgênicos em agricultura
O termo ‘transgênico’ aplica-se a organismos geneticamente modificados
(OGMs) pela incorporação permanente e estável
de genes de outras espécies por técnicas de engenharia
genética (biotecnologia). Nesse sentido, podem ser incluídos
microrganismos, plantas e animais. A tecnologia até o momento
desenvolvida ainda trabalha com genes únicos ou monogenes,
normalmente associados a características qualitativas, como
resistência a algumas doenças ou a herbicidas. De modo
geral, esses genes são obtidos de microrganismos (bactérias,
fungos ou vírus) e incorporados a um organismo superior (plantas
ou animais). Exemplos mais destacados de organismos transgênicos
na agricultura são a soja e o milho resistentes a alguns insetos
e ao herbicida glifosato; algodão com resistência a insetos
pelo uso do gene Bt e ao bromoxil; tomate com maior resistência
ao armazenamento e ao transporte; batata com resistência a insetos
e ao vírus Y etc.
Como toda inovação
tecnológica, a utilização experimental e comercial
de organismos transgênicos tem sido alvo de amplo debate pela
sociedade, em função das possibilidades de perda ou
ganho de competitividade para o setor agrícola, e suas implicações
ambientais e econômicas. O que é fato é que a
tecnologia de produção de transgênicos está
amplamente estabelecida e crescente em vários programas de
melhoramento genético em todo o mundo. É um fato científico
e tecnológico irreversível. Seu desenvolvimento representa
o próprio desenvolvimento da biotecnologia, com a conseqüente
capacitação de recursos humanos. Portanto, do ponto
de vista científico e tecnológico, a obtenção
de organismos transgênicos representa uma oportunidade de desenvolvimento
do setor agrícola.
Uma das questões que tem
sido colocada com freqüência com relação
aos transgênicos diz respeito à possibilidade de os produtos
dos genes inseridos serem danosos à saúde humana ou
animal ou de que esses genes possam migrar para uma outra espécie
nativa. Tais possibilidades podem existir em tese, mas não
devem representar riscos maiores que aqueles associados ao uso de
defensivos agrícolas tradicionais ou à inserção
via hibridação sexual de um gene de uma espécie
em outra respectivamente. Outro aspecto relaciona-se ao aumento do
uso de herbicidas em plantas com resistência a essa classe de
defensivos, facilitando o manejo de plantas voluntárias durante
o cultivo. Aqui, o aspecto custo-benefício precisa ser avaliado,
uma vez que uma determinada prática cultural poderá
ser ou não vantajosa, dependendo de vários outros fatores.
Por outro lado, transgênicos podem induzir a redução
no uso de defensivos, principalmente quando têm incorporada
resistência a pragas importantes ou mesmo a vírus, cujos
vetores são controlados sistematicamente.
O alto custo desses projetos
e a necessidade de continuidade explicam o atual monopólio
dessa tecnologia por algumas empresas e instituições
de pesquisa de alto nível científico. O retorno do investimento
está garantido por leis de patente e ou proteção
varietal. A tendência monopolística é, na verdade,
aparente, na medida que uma variedade transgênica por si só
não é garantia de ser agronomicamente superior, uma
vez ter sido originada de variedades melhoradas geneticamente para
condições outras que as do Brasil. A expectativa é
que essas variedades serão efetivamente piores que as nossas.
Falta-lhes um histórico de melhoramento para as condições
locais. Por outro lado, aí reside a competência dos Institutos
de Pesquisa do Estado de São Paulo.
Alguns outros pontos têm
sido levantados em torno da discussão sobre transgênicos:
as restrições nacionais e internacionais e a necessidade
de rotulação de produtos primários ou derivados
de plantas transgênicas. O mercado europeu, principalmente,
tem imposto restrições a esses produtos, embora sejam
de amplo plantio e comercialização no mercado norte-americano
e em alguns países da América do Sul, como Argentina
e Venezuela. A rotulação, que tem sido defendida por
algumas entidades, envolve, no entanto, discussões com vários
setores da economia. Normas técnicas já existentes sobre
composição de alimentos parecem se ajustar à
normatização desses produtos.
Não há dúvidas
de que os transgênicos e a tecnologia de sua produção
representam grande avanço científico e tecnológico:
podem, efetivamente, contribuir para avanços e sustentabilidade
de programas de melhoramento genético. A grande discussão
na mídia sobre o tema reflete a conscientização
da sociedade, mas apresenta, em vários momentos, caráter
ideológico nacionalista ou ambientalista. Guardadas as proporções,
o tema transgênicos atualmente lembra, em muito, a discussão
sobre reserva de mercado em informática nos anos oitentas.
Os transgênicos e sua tecnologia vieram para ficar e a rede
de pesquisa agropecuária no Estado de São Paulo poderá
optar por incorporar essa tecnologia com parcerias seguras e transparentes,
apoiada ainda na vantagem competitiva de possuir germoplasma adaptado
e programas de melhoramento voltados para a realidade brasileira.
Marcos
Antonio Machado
IAC – Centro de Citricultura Sylvio Moreira
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