O Agronômico, 51(2/3), 1999

  A contribuição do IAC para o desenvolvimento da agricultura brasileira e paulista

     Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Academia Paulista de Ciências, na pessoa do professor Alberto Carvalho da Silva, pela iniciativa desta homenagem ao Instituto Agronômico. Foi ele o articulador, o incentivador deste evento e muito esforçou-se para que o mesmo acontecesse. Ao Secretário da Agricultura e Abastecimento, Dr. João Carlos de Souza Meirelles e ao professor Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente do Conselho Superior da Fapesp pelas palavras que honram e valorizam o trabalho realizado pelo IAC. Gostaria de agradecer ao deputado Junji Abe que sempre tem atendido às solicitações de apoio que temos feito à Assembléia Legislativa e prontamente acedeu ao convite para aqui vir e proferir palestra. Ao Dr. Roberto Rodrigues, também palestrante deste evento, um reconhecimento especial pelo companheirismo sempre demonstrado e pela luta em colocar o agronegócio no espaço que merece. Nosso agradecimento pela presença do deputado Jamil Murad, sempre presente nas lides e discussões sobre ciência e tecnologia. Ao Dr. Walter Colli, presidente da Academia Paulista de Ciências. Ao professor Julio Marcos Filho, diretor da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"/USP, nossas saudações esalqueanas da "gloriosa" turma de 68, mesmo que, mais tarde, o Roberto Rodrigues queira fazer qualquer comparação com a de 65. Senhoras e Senhores. 
     Coube-me uma tarefa difícil que é falar sobre os impactos dos trabalhos do IAC no desenvolvimento da agricultura. A primeira dificuldade foi a escolha do tema e depois, falar sobre ele. Vou tentar então dar uma visão geral da instituição e contar alguns "casos" que aconteceram em nossa história, na maioria exitosos, e vou tentar balancear minha fala incluindo também alguns "escorregões". 
       Na manhã de hoje, pouco antes de para cá entrar, estávamos discutindo o porquê de um Instituto Agronômico com 112 anos. Em 1887, durante a monarquia, é criada a Imperial Estação Agronômica de Campinas para estudar essencialmente a cultura do cafeeiro que estava avançando pelo interior do Estado de São Paulo, tendo antes passado pelo Vale do Paraíba. Discutíamos porque essas coisas aconteceram, talvez em função de uma elite, mas de uma elite educada que previa prospectou que a tecnologia alicerçada numa ciência bem feita, com certeza alavancaria o progresso e alavancaria o sucesso dos empreendimentos naquela época. 
        Nessa hora de começar a falar da nossa instituição, da nossa casa, casa dos paulistas, muitas vezes vou confundir o sistema paulista instalado em ciência e tecnologia com o próprio Instituto Agronômico. Vou demonstrar o ufanismo paulista. Se houver alguém que não seja daqui, por favor me desculpe, mas é porque levamos isso no coração e é fruto de uma situação política, econômica e social que levou a acontecer o que aconteceu. 
      O Instituto Agronômico surgiu então com um decreto imperial, fruto de uma confabulação de dirigentes paulistas, cujo idealizador foi, com certeza, o Conselheiro Antônio Prado. Precedemos a própria Secretaria de Agricultura, pois ela foi criada dez anos após, incorporando o Instituto Agronômico. 
      Hoje somos uma instituição de pesquisa com 212 pesquisadores científicos e 1000 funcionários de apoio à pesquisa. Temos 20 estações experimentais totalizando uma área de 6.000 hectares, totalmente dedicados à pesquisa agrícola, à experimentação e à produção de sementes. Nosso orçamento tem variado nos últimos anos em torno de 20 milhões de reais, orçamento que inclui pessoal e custeio; um ano chega a 22, outro ano não passa de 18, mas de qualquer maneira o orçamento oriundo do Estado tem ficado nesse patamar. E temos participado bastante de projetos especiais de órgãos financiadores como a FAPESP, a FINEP. A própria EMBRAPA, numa época foi nossa financiadora, elevando então esse orçamento para cerca de 30 milhões de reais anuais. Devemos incluir aqui também a participação da iniciativa privada. Como as dificuldades que tínhamos há muitos anos são mais ou menos semelhantes às que temos agora, provavelmente nosso orçamento e nosso dispêndio devem ter sido mantidos mais ou menos constantes nos últimos anos. 
       Atuamos essencialmente em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, voltados para o desenvolvimento agrícola e especificamente na área da Agronomia. São famosas, como resultado desse trabalho, as citações encontradas sobre retorno econômico de pesquisas, sobre café, citros, algodão e cana. Só para ter uma idéia da importância dos fatos que aconteceram nesses 112 anos, 95 % dos cafeeiros plantados no Brasil passaram pelo Instituto Agronômico em algum momento como sementes de primeira geração, ou de segunda e de terceira, mas passaram por lá. 
     A base do agronegócio citros, que corresponde a 2,8 bilhões de dólares ao ano, com certeza também passou por lá: pode-se dizer que a totalidade das plantas cítricas hoje em cultivo, originaram-se de material trabalhado no IAC. Então, esse foi um impacto econômico imenso que é difícil de ser avaliado. É muito difícil avaliar o retorno de uma tecnologia pois esta, sozinha não faz nada, precisa ter junto todo o entorno . Foi isso o que aconteceu aqui em São Paulo e tem acontecido com relação ao desenvolvimento geral da agricultura. 
      Quando aconteceu o grande problema da econômico da década de 20, a quebra total da economia mundial em 29, no Instituto Agronômico já existia material genético, já existia a tecnologia de culturas que puderam substituir prontamente o café, com o que não tivemos problemas muito sérios em função da quebra do mercado do café que era, na época, o sustentáculo da economia brasileira. A isso dá-se o nome de previsão, um trabalho de prospecção que sempre foi característico da atuação do Instituto Agronômico. 
     Com a cana de açúcar aconteceu mais ou menos o mesmo, acompanhando o início da grande expansão da cultura aqui no Estado de São Paulo. Hoje, os projetos sobre cana de açúcar estão espalhados no Estado de São Paulo todo e o Centro de Cana de Açúcar trabalha totalmente integrado com o sistema canavieiro e com a indústria sucroalcooleira. Para se ter uma idéia do impacto econômico desse trabalho, desse novo enfoque, temos investido em cana mais ou menos 400 mil reais por ano, contando os salários dos pesquisadores, a participação da iniciativa privada e o custeio. Em pouco mais de oito anos foram desenvolvidos cultivares que em breve deverão estar ocupando praticamente 10 % da área plantada com cana no Estado de São Paulo. Investimos pouco, se compararmos aos demais investimentos feitos em cana de açúcar no Estado, mas temos um retorno muito grande em termos de eficiência do aplicado. Essa é uma outra característica muito interessante do IAC e exemplo de como o recurso nele aplicado retorna imediatamente ao sistema produtivo nacional. 
      Gostaria agora de colocar exemplos diversos das assim chamadas grandes culturas. Não poderia deixar de falar de dois marcos históricos do feijoeiro, que mudaram o sistema de produção, a concepção e a inserção da cultura na cadeia produtiva e a agricultura como um todo. O feijão foi, por muito tempo, uma cultura de subsistência, pelo menos até os anos sessenta, uma cultura produzida por pequenos produtores e com pouca expressão econômica. Em 1969 houve o lançamento de um cultivar - o feijão IAC carioca - que mudou a história do feijão, adequando-o para grandes áreas. Durante os anos setenta, esse cultivar mudou totalmente a concepção da cultura do feijão, tornando o produto uma commoditie no sentido próprio da palavra, de forma que hoje, não temos mais as crises de falta do produto. Hoje a dona de casa compra em supermercados, e não mais no "armazém da esquina", tendo havido também uma mudança paralela na área de comercialização. Ela abre o pacote e sabe o que vai encontrar: um tipo definido de feijão, com qualidade incorporada ao produto. Um outro marco que modificou totalmente a questão do feijão, foi o feijão-semente, que começou a ser implantado com grande intensidade a partir dos anos oitenta e que abriu a grande porta da irrigação no cerrado brasileiro. Essa implantação começou na região de Guaíra em São Paulo e depois se expandiu para o Oeste e Norte de São Paulo, para Minas, Goiás e já chegou ao Tocantins. Isso causou outra revolução, que foi a eliminação da quebra de safra, com sua conseqüente variação de preço e problemas de abastecimento. Hoje temos feijão novo no mercado todos os dias. Tudo isso foi possibilitado por um trabalho intenso da pesquisa e da extensão da Secretaria da Agricultura e depois dos outros estados também, num produto básico e que causou uma transformação imensa no processo tecnológico dessa cadeia produtiva. Daí seguem-se exemplos como as hortaliças, em que há muitos trabalhos, apesar de não terem a marca IAC, mas os cultivares em uso, principalmente os resistentes a viroses, levam-na em suas linhagens de origem. É o caso de tomate, das alfaces tropicais ou de verão e tantos outros produtos. 
      Uma outra característica do Agronômico que teve impactos fortes, com certeza indiretos, foi a formação de escolas. Uma escola do tipo da formada pelo Dr. Álvaro Santos Costa, que é a escola que serviu de base para toda a virologia brasileira. Esse foi um trabalho contínuo de vida, de gente que entrou no Agronômico e desenvolveu uma vida voltada à resposta dos porquês e de como as coisas acontecem. Essa escola redundou em trabalhos que tiveram e continuam tendo efeitos muito grandes na agricultura. Se havia plantas que tinham problemas por causa de vírus, como as videiras por exemplo, hoje já conseguimos que essas plantas não tenham mais tantos problemas como antes e ter produções adequadas ao consumo. Na área de solos tivemos um outro avanço muito grande. Já em 1903 os estudos sobre fertilidade do solo no IAC foram premiados numa feira em Saint Louis, nos EUA, pela qualidade das análises de solos feitas aqui no Brasil. Isso não ficou perdido, ficou um marco, um diploma guardado, que serviu de estímulo ao desenvolvimento da área. 
     Desenvolvemos metodologia para análise de solo não para competir com a iniciativa privada em fazer análises, mas para organizar um sistema que dá selo de qualidade aos laboratórios associados a ele e credibilidade à análise de solo e ao laboratório associado. Esses fatos têm tido então, um reflexo econômico muito grande: essa associação permite hoje que até se planeje estrategicamente o transporte de grandes quantidades de adubos, pois a partir da associação das informações dos laboratórios identificam-se áreas onde determinado nutriente está faltando, a possibilidade de a indústria definir determinadas fórmulas com muito mais eficiência e inclusive a estratégia de transporte para regiões onde esses fertilizantes sejam mais necessários. Ainda com relação a esse aspecto dos fertilizantes, há um consenso geral de que cada unidade financeira aplicada em fertilizante ou corretivo retorna ao produtor em duas unidades financeiras, numa relação de um para a dois. A agricultura paulista usa hoje mais ou menos 800 milhões de reais em fertilizantes. Se considerarmos o retorno em unidade financeira, o produtor rural está coletando um bilhão e seiscentos milhões de reais por ano só do retorno desse adubo aplicado. 
     Temos uma conta que, se conseguirmos aumentar em 10 %, só 10 %, a eficiência da aplicação, ou seja, a eficiência da utilização desse fertilizante, teremos o retorno líquido financeiro de 160 milhões de reais por ano. Estamos trabalhando pesadamente nisso na divulgação de todo o conhecimento acumulado e para a mais correta utilização de adubos. 
      Não poderia esquecer de citar a questão da fruticultura. Falamos rapidamente da uva sem vírus, mas temos que contar que 50 % de todas as videiras plantadas aqui em São Paulo o são em cima de estacas, "cavalo" IAC e que 100 % de todas as videiras plantadas no Vale do São Francisco, 100 %, todas elas, o são sobre o "cavalo" Ripária do Traviú, que é do Instituto Agronômico. Então, essas tecnologias desenvolvidas propiciaram não só que se faça agricultura com qualidade, mas principalmente, que se faça agricultura em muitas áreas, como resultado da obtenção de plantas bem adaptadas à agricultura tropical. Soja é outro exemplo que salta à vista. A soja sempre foi considerada uma cultura de clima temperado: o Rio Grande do Sul foi nosso primeiro grande produtor. Só que soja chegou primeiro à Bahia, passou por São Paulo e foi para o Rio Grande do Sul onde se estableceu como grande cultura. 
     No final da década de quarenta e início dos anos cinqüenta São Paulo devia produzir 3 toneladas de soja por ano, se tanto, mas no Agronômico já havia uma equipe trabalhando com o desenvolvimento dessa cultura, fazendo cruzamentos, pesquisando e tentando transformar a soja num cultivo de clima tropical. Naquela época só se podia plantar soja durante 15 dias, de 1º a 15 de novembro. Qualquer transtorno que acontecesse nesse período inviabilizaria a cultura como um todo. Mas já havia cientistas pesquisando a mudança dessa característica. 
      Essa mudança fisiológica da soja permitiu a criação do que se chama de soja tropical. Não é à toa que hoje se produz soja, e bem, em latitudes de Oo, com grande competência. A soja do Brasil de hoje é a soja do Centro-Oeste, a soja do Norte, baseada em trabalhos básicos de visionários que questionaram o por quê de a soja ser tdependente do fotoperíodo. Não poderia ser independente? "Vamos procurar." E acharam. Falaram algumas meias verdades na época, do ponto de vista científico, de dependência total e indiferença ao fotoperíodo, quando se estava tratando realmente de uma outra coisa, que era o período juvenil. Mas, isso não vem ao caso do ponto de vista prático. 
     Em 1963, 64 e 65, um dos materiais de soja criados aqui em São Paulo, a IAC-L326, batizada de Santa Rosa no Rio Grande do Sul, ocupava 80 % da área plantada com soja no Brasil. 
      Essa questão de prospecção de futuro, essa previsão de possibilidades, sempre morou no Instituto Agronômico e sempre fez parte do planejamento científico e tecnológico da instituição. Isso redundou num somatório de grande quantidade de capital intelectual e de capital forte em tecnologia aplicada. Nem todas 100 % aplicadas, mas com certeza todas com um fim prático, imediato, de utilização pelo sistema produtivo brasileiro. 
      Como seria a agricultura sem o IAC? Essa pergunta quem me fez foi o Dr. Ondino Cleante Bataglia ontem de manhã, e desafiou-me: "Coloque isso no seu discurso!" Mas eu não tenho o que falar, como é que eu vou falar do que seríamos sem o IAC? Aí eu pensei um pouquinho e encontrei algumas respostas. Provavelmente não teríamos nem panela de pressão! Panela de pressão, segundo as más línguas foi inventada e difundida para cozinhar o feijão, aquele feijão criado em 1934/35, chamado chumbinho opaco e que era realmente duro de cozinhar. 
        Algumas coisas deram certo e outras nem tanto. Em 1942/43, o Eng.º Agrônomo Otávio Teixeira Mendes, de saudosa lembrança, duplicou cromossomos de melancia e criou a melancia sem semente. Não deu certo na época, depois não "pegou" na década de 60, a implantação como cultura também não funcionou nos anos 80. Hoje vê-se no jornal a grande propaganda de melancia sem sementes. Provavelmente vamos pagar caro pela semente e tudo o mais porque vai ser uma grande novidade. Haja marketing (área que temos exercitado muito pouco)!!! 
       Nessa mesma linha de pensamento, a seringueira foi uma grande solução, pois muitos produtores plantaram-na e plantam, e só não está indo bem por motivos meramente econômicos. Tentamos duplicar os cromossomos de seringueira para termos uma árvore com o dobro do tamanho, e, em vez de produzir duas canequinhas por pé por dia, produziríamos seis canequinhas por pé por dia. Não deu certo. A duplicação de cromossomos levou a uma árvore maior do que as normais, com folhas imensas, mas sem látex. 
     Então, nem sempre as coisas deram certo. O Antonio Sidney Pompeu criou, em 1983/85 lá na Seção de Genética, o feijão IAC "Piratã". Esse foi um feijão que não pegou na grande lavoura, apesar da produtividade, porque tinha uma característica desfavorável, não percebida como impedimento durante a fase experimental: a vagem terminava em um espinho. 
     Naquela época, em que não havia muitas máquinas colheitadeiras, a colheita manual ficou impossibilitada por causa do espinho. Nós então, com muitos mais acertos do que falhas, temos participado do processo de desenvolvimento das agriculturas paulista e brasileira. 
        Temos desafios claros, grandes pela frente: nossa inserção nessa nova agricultura que vem vindo. Mudanças sensíveis e grandes têm acontecido na maneira de atuarmos. Mudamos o modelo da pesquisa por oferta para um modelo de pesquisa para atender à demanda. Não que antes não se fizesse pesquisa para atender às demandas, mas hoje procuramos mecanismos mais explícitos para captá-las e atendê-las. Hoje, quando discutimos e formatamos um projeto de melhoramento do abacaxi, também fazem parte da mesa de discussão o produtor, a associação de produtores, o comerciante - que vai comprar e vender e que sabe o que o consumidor quer – e os próprios consumidores. Esse processo hoje é inerente, praticamente a todos os produtos. Hoje, nosso parceiro no melhoramento do feijão, além do produtor rural, é o empacotador, é o supermercado. Então é uma mudança bastante grande que explicita muito de perto para quem estamos trabalhando. Não é mais só para o produtor rural, pois incorporou-se fortemente a visão da qualidade, que é extremamente importante. Mas, temos também outros grandes desafios: o desafio da agricultura como produtora do emprego e trabalho, o desafio forte da inclusão social, um desafio que nós, da área técnico-científica especialmente no agronegócio ainda não entendemos muito bem como trabalhar, que é a agricultura familiar, e um desafio específico do Agronômico que, além de sua inserção maior no agronegócio, é a autonomia de gestão. 
      Com relação à agricultura, emprego e trabalho, eu gostaria de dar um exemplo que mostra coisas que aconteceram e que tiveram grande impacto depois de anos. Eu voltaria ao caso da uva. Em 1974 estavam, Fernando Mendes Pereira - hoje professor na UNESP -, Fernando Picarelli Martins - da Estação Experimental de Jundiaí - e mais um colega de cujo nome eu não consigo lembrar, trabalhando com a videira para uva de mesa, na questão de como fazer o desbaste dos frutos. Essa era uma operação cansativa, muito dificultosa porque exigia uma pessoa com uma tesourinha, desbastando os grãos de uva, um a um, logo após sua formação. Era uma posição de trabalho terrível porque a videira é conduzida em caramanchão, e então a pessoa tem que ficar de pé, olhando para cima e trabalhando com os braços levantados, em uma posição bastante incômoda e de baixo rendimento. Pensaram então, "por quê não passar uma escovinha?" E testaram várias escovinhas até descobrirem que duas dessas, para cabelo, de plástico, opostas, resolviam o problema. Então, a partir da situação em que se necessitava uma pessoa por dia para degranar poucos cachos e com dor nas costas, com aquela escovinha passou-se a fazer até vinte vezes mais, e com conforto. Em 1975 esta técnica foi apresentada num simpósio no Chile e, em 1976 dois japoneses, no Japão, patentearam-na. Bom, é claro que essa patente foi inócua, porque ninguém vai comprar o pente patenteado, pois basta pegar-se duas escovinhas de cabelo e está feito o equipamento. 
     Isso possibilitou ao produtor rural instalar um pomar de 3, 4, 5 ou 10 hectares, o que era antes inviável, pois teria que contratar um batalhão de pessoas para degranar a uva em períodos muito curtos. Então, vejam a mudança que propiciou uma descoberta dessa natureza! Esse foi um exemplo de uma tecnologia desenvolvida que possibilitou posteriormente que se implantasse no Oeste do Estado de São Paulo, vinhedos de primeira qualidade e também se expandisse por todo Nordeste, especialmente no Vale do São Francisco. Alie-se a isso o fato de que cada hectare dessa uva de mesa propicia quatro empregos diretos o ano todo, fora a mão-de-obra extra que tem que ser contratada na hora de "pentear" o cacho de uva e na colheita. Fatos assim têm um impacto econômico difícil de ser medido pelas fórmulas econômicas disponíveis, mas que são palpáveis em termos de uma avaliação mais geral. 
      Uma área que é um grande desafio, é a da inclusão social. Estamos achando uma trilha, um caminho, abrindo uma nova frente de trabalho, que é um olhar diferente da pesquisa, do jeito que nós estamos acostumados a cruzar A com B, selecionar, pôr adubo, tirar adubo, ir ao laboratório e considerar os sistemas tecnificados de produção que usam grande quantidade de insumos. Não nos acertamos muito bem ainda com a inclusão social, mas temos achado caminhos de poder atuar também nessa área, que é o trabalho com as comunidades indígenas, com os quilombos, que também fazem parte da nossa missão. Não é perda de tempo, nem de esforço e já faz parte do nosso trabalho. Estamos achando um caminho de trabalhar com eles porque, numa situação de excluídos sociais, a chegada lá de uma simples tecnologia pode causar uma mudança incrível em suas vidas. Não queremos levar a cidade para eles, mas queremos que essas pessoas tenham a mesma chance de, com dignidade e trabalho, ascender socialmente ao nível que eles quiserem, sem que haja uma interferência nossa muito grande. O mesmo quadro ocorre com a agricultura familiar, que estamos estudando e precisamos do apoio de todo o sistema para que consigamos entender os processos que interagem nessa área de produção. 
        Outro grande desafio nosso é a autonomia de gestão, tanto da pesquisa quanto da apropriação de seus resultados. Imaginemos a área de melhoramento genético vegetal e que, de repente, o Estado de São Paulo seja possuidor de uma variedade nova. Pergunto: de quem que é essa variedade? É do Agronômico, ela foi criada lá, foi produzida lá, só que esse Instituto Agronômico não tem uma personalidade jurídica e não tem sabido como tratar a posse de um capital intelectual, de um patrimônio dessa natureza. Esse então é um dos grandes desafios nossos, avançarmos na gestão da própria instituição para aprendermos como tratar nosso capital intelectual de uma maneira condizente, de uma maneira acertada e considerando que a nossa formação é a formação de um patrimônio público. É um conhecimento público mas que deve ser protegido em função das novas relações que acontecem no mundo e que tendem a ser cada vez mais aceleradas no próximo milênio. Este vai ser extremamente difícil mas eu gostaria de deixar-lhes garantido que estaremos prontos a aceitar todos os desafios que vierem pela frente em apoio a uma agricultura cada vez mais forte, mais competitiva, ecologicamente mais saudável e, principalmente, socialmente adequada ao Brasil. 

Eduardo Antonio Bulisani 
Engenheiro agrônomo e Diretor Geral do Instituto Agronômico