Celeiro do mundo: quando?
O dia em que caiu o Muro de Berlim representa uma data emblemática
para a humanidade. É possível dizer que não houve
um único cidadão do planeta que tenha escapado das conseqüências
daquela efeméride. Longe da realidade está quem imagina
que ali só se desvaneciam os sonhos utópicos do comunismo.
Ou que estava proclamada a vitória do capitalismo. Longe, muito
longe.
Naquela data, dois veteranos
conhecidos se uniram em um matrimônio assustador: a globalização,
velha senhora que vinha operando desde os vikings, com o liberalismo,
ancião que já assombrara a Europa em outras eras. E
essa veterana dupla pariu duas bestas apocalípticas que passaram
a galopar sem bridão pelo mundo afora, destruindo esperanças,
destroçando instituições e estruturas consolidadas
e apeando governos das mais diversas colorações: a concentração
e a exclusão, gêmeas e inseparáveis irmãs
que chegam ao fim do segundo milênio como a maior ameaça
às democracias.
A agricultura brasileira não
escapou da sanha de ambas. Porque as conheceu juntamente com outras
duas mudanças que ocorreram intra-muros: a estabilização
da moeda e a falência das políticas públicas para
o campo.
Essa louca mudança de cenários
(de um país fechado com alta inflação e governo
intervencionista para um país "arrombado" comercialmente, com
inflação civilizada e estado falido) levou o setor rural
a sofrer uma perda de renda insuportável. O Gráfico
1, preparado a partir de dados da Fundação Getúlio
Vargas do Rio de Janeiro (vide Revista Agroanalysis n° 4, vol.
19, p. 18), mostra com clareza que entre 1980 e 1998, embora a área
plantada no País não tenha crescido, os agricultores
incorporaram tecnologia, aumentaram a produtividade por área
e levaram a produção física a um incremento de
40 %.
No entanto, o valor dessa produção
assim acrescida caiu, no mesmo período, outros 40 %. Isso explica
porque se pode ouvir com freqüência nas rodas economicamente
esclarecidas e urbanas que "no Brasil, só compra fazenda quem
é louco ou ignorante".
Isso explica também, por
outro lado que, na transição de um cenário para
o outro, os agricultores brasileiros se tornaram partícipes
ativos de duas gigantescas revoluções: uma barulhenta
e outra silenciosa. A revolução barulhenta está
sendo executada pelos excluídos e pelos em via de ... Recente
trabalho do técnico do Ministério da Agricultura, Antonio
Lício, mostra que nos últimos sete anos a agricultura
desempregou cerca de dois milhões de pessoas, sem contar as
centenas de milhares de pequenos produtores que perderam tudo o que
tinham em função dos ajustes de índices dos planos
Collor e Real, quando o descasamento entre dívidas e preços
criou um fosso irreparável entre devedores e credores. Essa
exclusão brutal bem que justifica o crescimento dos chamados
movimentos sociais, como o MST. Não importa se tais movimentos
se tornaram político-ideológicos mas, na sua origem,
eram consistentes. E os paliativos securitização, pesa,
recoop, entre outros, não resolvem a questão do endividamento,
principalmente daqueles que entraram no Plano Real com créditos
indexados pela famigerada TR. Essa revolução barulhenta
só terminará com a solução definitiva
dos problemas ou com a "morte" de seus atores.
Por outro lado, há uma
revolução silenciosa em andamento, servida pelos agricultores
capitalizados, basicamente aqueles que não tinham dívidas
no dia em que se implantou o Plano Real. Estes, no firme propósito
de sobreviver, lá vão realizando um projeto formidável,
medido por três variáveis. A primeira é a inovação
tecnológica, visível, decretada pela adoção
das mais modernas máquinas, sejam tratores, colheitadeiras
ou equipamentos, dotados de computadores de bordo, GPS e ar condicionado.
Os insumos mais recentes são aplicados, assim como técnicas
de ponta como o plantio direto e agricultura de precisão. A
segunda, menos visível, e certamente imensurável, é
a revolução gerencial. Já não basta mais
a melhor tecnologia, se o fazendeiro não for um bom gerente.
É preciso ser bem informado para ser um comerciante ágil,
para comprar insumos ou vender a produção na hora certa.
Gerência financeira é indispensável, seja para
tomar crédito com adequado mix de juros, seja para aplicar
suas reservas. Saber calcular e pagar impostos já exige preparo,
assim como cuidar das questões ligadas a custos de produção
e organização do trabalho. Cuidados com a formação
de recursos humanos e os contratos de trabalho são prioridades,
bem como o adequado tratamento da questão ambiental. E a terceira
vertente da revolução silenciosa é a mudança
de modelo: trata-se da necessidade de agregar valor à produção
primária. Já não é mais possível
fazer renda compatível com os investimentos no campo vendendo
grãos, por exemplo. É preciso transformá-los
em óleo, farelo, carne ou leite. É preciso industrializar
e distribuir tais produtos. E, naturalmente, isto exige uma radical
transformação das cooperativas agropecuárias,
que serão os principais agentes dessa transformação.
Também elas precisam se profissionalizar, reduzir custos e
melhorar seus serviços mediante fusões, incorporações,
alianças estratégicas e bom marketing.
Uma modernização dos
contratos de parceria e de integração também
serve à causa da agregação de valor. O que é
essencial é a adoção, na prática, do conceito
teórico (já assimilado) de cadeia produtiva, do agribusiness.
Até para mudar o peso político do setor. Sabe-se que
a produção rural tem um peso ao redor de 10 % do PIB
brasileiro, mas o agribusiness já está próximo
dos 40 %, além de ser o setor que mais emprega no País
(quase 50 % da PEA) e ser o maior responsável pela pauta de
exportações (ao redor de 40 %), enquanto os produtos
in natura vão perdendo importância, como se observa pelo
Gráfico 2.
Mas mesmo esses agentes modernos
da revolução silenciosa foram vítimas da tríplice
colisão - globalidade, estabilização, estado
falido - e estão ameaçados em sua atividade.
Recente estudo dos brilhantes economistas
Eliseu Alves, Mauro Lopes e Elísio Contini revela que, mantido
o atual estado de coisas em termos da política econômica
para o campo, dos atuais 4,9 milhões de produtores rurais restarão,
em 15 anos, não mais que 600 mil. O número assusta,
principalmente porque o sinal é muito claro quanto à
exclusão do pequeno produtor rural. Assim, enquanto a sociedade
gasta dinheiro para promover assentamentos, a economia nacional desassenta
em muito maior escala, pressionando os centros urbanos por mais infra-estrutura,
que também a sociedade tem que pagar.
A situação é
tal que leva muitos representantes da classe rural a questionar sobre
a validade de sua luta e, mais ainda, sobre o futuro da agricultura
no País, e até no mundo.
Afinal, está evidenciado que as tecnologias
modernas aumentaram espetacularmente as produtividades; a ciência
permite a produção de alimentos sintéticos que
substituem os que a terra produz; cada vez mais, passos como a engenharia
genética e a hidropônica ocupam espaços crescentes.
Chegará o dia em que a terra não precisará ser
amanhada para produzir grãos, fibras e biomassa? Não
parece possível.
Quem o afirma é Lester Brown,
presidente do Worldwatch Institute que, por encomenda do governo japonês,
realizou extensa investigação sobre o assunto, concluindo
que, nos próximos 20 anos, a produção agrícola
crescerá menos que a população, elevando o patamar
dos preços dos alimentos. Brown lastreia suas conclusões
em três variáveis.
A primeira é a escassez de terras
aráveis. Segundo ele, o mundo não tem muitas novas fronteiras
agrícolas por conquistar e as existentes ou têm baixa
fertilidade ou estão muito longe dos centros de consumo, exigindo
pesados investimentos em infra-estrutura. A segunda é a incapacidade
da ciência em gerar tecnologias capazes de promover novos saltos
espetaculares de produtividade por área. E a terceira é
a diminuição da água disponível para irrigação,
visto que a urbanização em todo o mundo, particularmente
nos países asiáticos, exige mais água potável
nas cidades para consumo humano.
Embora todos os argumentos de Brown
sejam passíveis de discussão, é evidente - e
ele mesmo o reconhece - que o Brasil constitui uma exceção:
cultiva menos de um terço de sua área agricultável
que, sendo em sua maioria cerrado, tem fertilidade razoável.
É certo que nossa fronteira agrícola não dispõe
de boa logística, mas as privatizações vão
mudando essa realidade. E, também, temos quase um quinto da
água doce do planeta. Assim, enquanto nossos agricultores
vivem momentos de tensão que se eternizam na década
desperdiçada dos noventas mas têm, aparentemente, um
futuro alentador.
Como atravessar esse atoleiro
do presente para a glória de dois mil e qualquer coisa? Até
o Governo Federal, há tantos anos dedicado a sucatear os instrumentos
de política agrícola, deu-se conta, recentemente, de
que o agribusiness poderia resolver dois problemas que vão
ficando crônicos. O da balança comercial, cujo saldo
negativo nos últimos anos só não foi fatal porque
os agronegócios foram superavitários, como sempre (Gráfico
3). E o segundo, o da geração de empregos. Está
mais do que evidente que nenhum setor da economia gera mais empregos
do que o agronegócio para cada milhão de reais investidos.
E se nesta conta entrarem setores específicos, como de papel
e celulose ou o de têxteis, a liderança dispara (Gráfico
4). Com base nessa constatação, o Presidente Fernando
Henrique Cardoso criou, no segundo semestre de 1996, o Fórum
Nacional da Agricultura (FNA), uma experiência inédita
em que representantes do setor rural, do governo e do parlamento se
debruçaram sobre os conhecidos diagnósticos dos problemas
rurais e agroindustriais e, durante quase dois anos de dura faina,
elaboraram um projeto formidável para o agribusiness, composto
de dezenas de programas condensados em um documento chamado "As dez
bandeiras do agronegócio". Cada uma delas (ver Quadro 1) era
composta de diversos programas, cujo encaminhamento estava dado.
Esse histórico documento - histórico
porque contou com a participação desprendida de quase
todas as entidades rurais, inclusive trabalhadores, pela FETAESP -
foi entregue ao governo, com grande solenidade, em 2 de setembro de
1998.
Lamentavelmente, foi solenemente desprezado,
talvez pela ignorância agrícola de nossas autoridades
econômicas, embora algumas das propostas tenham caminhado em
paralelo com os próprios trabalhos do FNA. Na prática,
seu conteúdo poderia ser resumido em três grandes conjuntos
de ações que, se empreendidas, fariam a ponte referida
entre presente e futuro.
O primeiro deles é definido
pela reforma das políticas públicas, sob uma única
referência: conferir igualdade de oportunidades para os produtores
brasileiros, quando confrontados com seus colegas de países
desenvolvidos. Nada se propõe ou se exige além de isonomia.
Para tanto, é absolutamente essencial reformar as políticas
macroeconômicas, especialmente a monetária (para atingir
juros civilizados) e a tributária (desonerar a produção),
a previdenciária, sem o que não se dará o ajuste
fiscal, e até a reforma política. Depois virão
as setoriais, em que tem peso uma política de renda mínima
para o pequeno produtor. O seu êxodo para as cidades é
decorrente de não ter renda na atividade.
As intermináveis discussões
sobre a necessidade de fixar o homem ao campo não consideram
esse aspecto, como se o agricultor fosse um eterno condenado a ficar
fixo na roça, sem renda, porque assim o desejam os acadêmicos
urbanóides do Brasil. Muito mais espertos do que parecem, os
agricultores buscarão novas alternativas para educar seus filhos
e cuidar da saúde de suas famílias se o campo não
lhes der essa chance.
O segundo conjunto de ações
relaciona-se à organização do setor privado,
tanto política quanto econômica. Bolsas, cooperativas
e agroindústrias devem participar dessa reordenação
institucional sob a égide do agribusiness. E, a partir
daí, duas ações são fundamentais: cuidar
da imagem do setor, tão vilipendiada pela contra-informação
de que a opinião pública acha que o agricultor ou é
"barão", ou caloteiro, ou incompetente, além de explorar
menores e trabalhadores.
Ninguém se dá conta da
violência que é o desrespeito à propriedade representada
pelas invasões de terras, terrorismo tupiniquim ao qual governos
débeis e a sociedade em geral desinformada fazem vista grossa.
E, adicionalmente, é preciso, de forma organizada, preparar
o lobby sobre o legislativo e o executivo, buscando a reforma de quase
70instrumentos legais, desde leis até regulamentos do BACEN,
que entravam o desenvolvimento rural. Aí estão a lei
da armazenagem (feita em 1903!), a trabalhista, a florestal, entre
outras.
E, finalmente, precisamos de boas negociações
na área internacional, visando à conquista de mercados
externos. Aqui está um ponto muito delicado. De nada adiantarão
políticas públicas isonômicas em relação
a nossos concorrentes e nem uma moderna organização
privada com todo o marketing que ela possa fazer, se as regras de
comércio exterior nos discriminarem. E a oportunidade para
essa virada é a rodada do milênio, organizada pela OMC
e que deverá se estender por, no mínimo, 3 anos. Trata-se
da obrigação assumida pelos 134 países signatários
do Acordo Agrícola extraído da Rodada Uruguai do GATT,
que estabelece a plataforma básica para as novas negociações,
a partir dos temas centrais: acessoa mercados, políticas de
apoio interno e estímulos à exportação.
Além desses temas, outros virão
à tona nas novas negociações, como a cláusula
social, a questão ambiental (alimentada pela tese da multifuncionalidade),
os transgênicos e outros.
O Brasil, que sempre se posicionou
mal nessas negociações, seja pela desorganização
do setor privado, seja pela desinformação do governo,
tem agora uma nova postura. A ABAG, a CNA e a OCB organizaram-se em
um Fórum Permanente de Negociações Agrícolas
Internacionais, sediado em Brasília, que já definiu
a posição brasileira quanto às questões
gerais, bem como quanto às especificidades das diversas cadeias
produtivas. Está também o setor privado articulando-se
bem com o governo, especialmente com o Ministério da Agricultura
e com o Itamaraty, que têm demonstrado grande boa vontade quanto
ao entendimento. Mas é preciso uma sólida coordenação
e ação de conjunto, porque a negociação
dar-se-á sempre em bloco. Se um setor negociar em separado,
poderá prejudicar a si mesmo ou a outros setores não
enfocados naquele momento, até porque é visível
um recrudescimento das práticas protecionistas, em função
de duas circunstâncias. A primeira é a exclusão
social, já referida, que afeta duramente os produtores rurais
dos países ricos. Estes, os ligados à OCDE, gastaram
em 1998, cerca de 362 bilhões de dólares para proteger
seus agricultores direta ou indiretamente. Isso chega a quase 1 bilhão
de dólares por dia. Enquanto isso, o Brasil fica no PRONAF
e no PROCERA. Eliminar os subsídios e a proteção
na Europa ou no Japão promoveria a falência de milhares
de pequenos produtores, com conseqüências sociais que custariam
mais caro que o atual modelo.
Além disso, é também
evidente que a riqueza imensa dos países desenvolvidos lhes
permite essas práticas protecionistas. Isso quer dizer que
não existe apenas uma disputa por mercados entre agricultores
de países ricos e pobres. Há, acima disto, uma disputa
entre tesouros, o que nos coloca em situação bastante
desvantajosa frente a americanos, europeus e alguns asiáticos.
Por tudo isto, é importantíssimo que nos organizemos
ao máximo para evitar mais uma derrocada na OMC. Esta seria
uma pá de cal na nossa já combalida economia rural.
Finalmente, cabe uma observação
quanto à questão inicial: os efeitos da concentração
sobre as cadeias produtivas no Brasil. Impulsionados pela competitividade,
cresce o número de fusões no setor do agribusiness.
Já é pequeno o número de fabricantes de tratores,
devendo cair ainda mais. Também se reduz o número de
produtores de sementes, defensivos e fertilizantes. Suas margens diminuíram
e, premidos pelo ajuste cambial de janeiro de 1999, elevaram seus
preços sem que os produtos agrícolas acompanhassem esses
aumentos. Na outra ponta, juntaram-se as indústrias de alimentos,
de laticínios e esmagadores, assim como as empresas de distribuição
e abastecimento. Pressionada pelos dois lados, a margem dos produtores
vai também se reduzindo. Já se falou sobre isso, apontando-se
o caminho da agregação de valor como a solução
evidente.
Mas fica nessa questão
uma grande interrogação: qual será o grau de
capacidade do Brasil de se livrar da dependência tecnológica?
A concentração antes da porteira somada ao diferencial
de investimentos em tecnologia entre os países ricos e o nosso
está sinalizando um risco enorme de dependência.
Um dado esclarecedor a respeito é
o volume de recursos destinados ao desenvolvimento tecnológico
no Brasil e nos Estados Unidos. De acordo com o Ministério
do Planejamento, em 1997, no Brasil foram investidos em P&D 1,15
% do PIB, o que eqüivale a 8,76 bilhões de dólares,
enquanto nos EUA, o valor foi bem maior, cerca de 2,5 %, e isto vale
125 bilhões de dólares.
Eis aí um assunto que deve preocupar
sobremaneira o governo. Uma sociedade que não gera sua tecnologia,
especialmente a agrícola, sendo a nossa tropical, bem diferente
da dos países do hemisfério norte, poderá ter
futuro?
A tecnologia é a alavanca da competitividade.
E aqui já se viu que os agricultores brasileiros souberam incorporar
tecnologia, aumentar a competitividade e abastecer a população
do País, mesmo com sua renda caindo. Até quando será
possível sustentar isto? Até quando a concentração
no agronegócio de países ricos estará excluindo
nossos produtores? Afinal de contas, nosso potencial produtivo é
fantástico, como se pode ver pelo Quadro 2.
Mas a realidade é outra.
Até quando o país "celeiro
do mundo" precisará passar pela vergonha de importar arroz,
milho, trigo, algodão, feijão, leite e até borracha?
Até quando?
Roberto
Rodrigues
Engenheiro agrônomo e agricultor, presidente da Aliança
Cooperativa Internacional e da Associação Brasileira
de Agribusiness e professor de Economia Rural da UNESP-Jaboticabal.