
O Agronômico, 51(2/3), 1999
Plantio direto na Alta Mogiana
A região nordeste de São Paulo, também denominada
de Alta Mogiana, além de ser o maior pólo sucro-alcooleiro
do planeta é responsável por cerca de 35 % da produção
de alimentos do Estado.
Por diversas razões, que vão
da própria realidade econômica, até aspectos culturais,
passando por limitações climáticas como inverno
seco, o sistema de cultivo predominante desde há muito, é
o convencional. Todavia, nos últimos anos vem crescendo a área
com plantio direto, inclusive em ambientes agrícolas com sistemas
de produção bem definidos, como o da cana-de-açúcar.
Nesse contexto, o Núcleo de Agronomia
da Alta Mogiana tem procurado responder a essa importante demanda de
pesquisa. Desde 1997, essa unidade do IAC vem instalando áreas
no sistema plantio direto, totalizando atualmente mais de 50 ha. Estas
áreas têm possibilitado extrair importantes informações
práticas de manejo, bem como algumas iniciativas de pesquisa
e parcerias com empresas do setor privado na realização
de reuniões de divulgação para técnicos
e produtores.
As experiências até
o momento podem ser agrupadas nas seguintes iniciativas; Campos de produção
de sementes básicas, de Experimentação e de Demonstração.
Campos de produção de sementes básicas
As primeiras áreas no sistema de plantio direto nesta unidade
foram implantadas na primavera de 1997, seguindo a a seqüência:
crotalária na primavera, milho no verão e feijão
no inverno.
Para a implantação do sistema
plantio direto foram aproveitadas as áreas destinadas à
produção de sementes básicas. Incluiu-se milho
no sistema com a finalidade de fornecer boa palhada para a próxima
cultura e em razão de constituir-se em boa opção
de rotação para o feijão.
Além do feijão, a soja e, mais recentemente,
cultivares de trigo, estão sendo multiplicados em áreas
sob plantio direto. São relatadas a seguir, dentro de cada operação,
as observações e dificuldades encontradas.
Colheita
Devido a colheitadeira de cereais não possuir esparramador de
palhada, esta acumula-se em alguns pontos, formando leiras. Nesses pontos,
a operação de semeadura fica prejudicada ocasionando falhas
no estande da cultura subsequente (Figura 1).
Onde existe acúmulo de palhada do milho, durante
o recolhimento mecanizado do feijão ocorre embuchamento, visto
ser a palhada de milho recolhida juntamente com as vagens.
Figura 1. Falha no estande de feijão em plantio direto.
Semeadura
Para facilitar a penetração do disco de corte da semeadeira,
tem-se observado a necessidade de umidade no solo. Todavia, deve-se
observar que solos muito úmidos concorrem para movimentar excessivamente
a linha de semeadura. O resultado mais evidente é o aumento da
infestação por plantas voluntárias na linha de
semeadura, demandando aumento no uso de herbicidas.
Em terrenos irregulares ou com muitas depressões,
a operação de semeadura fica prejudicada, ocorrendo a
deposição das sementes sobre a palhada, sobretudo em áreas
de cana-de-açúcar.
Correção do solo e adubação
Tem-se verificado a necessidade de antecipação da cobertura
nitrogenada e em maior quantidade, mesmo para o feijoeiro. Constatou-se
a importância da aquisição de equipamento para realização
de adubação em cobertura, que distribua o fertilizante
sob a palhada, em profundidade, tendo em vista a impossibilidade de
realizar a irrigação em tempo hábil. Os problemas
são ainda maiores quando se usa uréia como fonte de nitrogênio.
Considerando que a correção da acidez
tem sido prática comum nesta Unidade, com monitoramento a cada
dois anos, não foram encontradas situações muito
problemáticas quanto a este aspecto. Nas áreas em plantio
direto, a calagem tem sido realizada em superfície.
Controles fitossanitários
Até o momento não têm sido observados problemas quanto à incidência e ao controle de pragas e doenças no sistema plantio direto. Observou-se, no primeiro ano de cultivo do feijão, a presença de lagartas elasmo e rosca atacando nos estádios iniciais da cultura.
Controle de plantas invasoras
O sistema plantio direto tem se mostrado como boa solução
para a utilização de áreas com alta infestação
de tiririca, possibilitando a convivência da cultura e reduzindo
sua multiplicação na área, devido à não-movimentação
do solo e uso freqüente de herbicidas sistêmicos.
A presença de grama seda (Cynodon
dactilon) tem-se constituído em sério problema em
áreas com plantio direto, pois o controle tem que ser localizado
e necessita de altas doses. Um outro agravante é a necessidade
de uma segunda aplicação para controle da rebrota, dificultada
em razão da cultura já estar instalada.
Em áreas com alta infestação
de trapoeraba tem sido necessário um cuidado especial antes da
instalação da lavoura, mediante a utilização
de herbicidas dessecantes, uma vez que seu controle fica dificultado
após a implantação da cultura.
Convém salientar que quando se pretende
colher sementes das culturas de cobertura, além da produção
da palhada, normalmente ocorrem altas infestações na cultura
principal, com controle dificultado.
Culturas de coberturas e formação de palhada
Têm sido utilizadas como culturas de cobertura do solo, milheto, crotalária, feijão guandu, aveia preta e, mais recentemente, o sorgo guiné.
Milheto
Desde 1995 está sendo multiplicada a variedade de milheto da espécie Pennisetum americanum L., denominada de BN-1. (Figura 2)
As experiências até o momento têm demonstrado que
esta gramínea é realmente bem tolerante ao estresse hídrico.
Todavia, por apresentar fotoperiodismo, não foi possível
conseguir bons resultados mesmo em áreas irrigadas durante os
meses de inverno.
Convém mencionar que há necessidade
de semeadeira para grãos miúdos quando se procura conseguir
uma boa semeadura. As tentativas de utilização de semeadeiras
com sistema pneumático não foram satisfatórias
face ao entupimento dos orifícios dos discos.
Tem-se constatado que a melhor opção
de manejo para o milheto consiste na semeadura no início das
águas, quando o somatório de temperatura é mais
elevado. Nessa época, a cultura se desenvolve mais rapidamente,
atingindo boa fitomassa ao redor dos 45-50 dias. Nota-se porém,
nesse período, que a decomposição da cobertura
é rápida. Quanto a esse aspecto, é importante lembrar
que a palhada deve estar em quantidade suficiente e bem distribuída
nos momentos de maior susceptibilidade da cultura, ou seja, no início
do desenvolvimento.
Sorgo Guiné
Material introduzido da África Francesa pelo CIRAD, apresenta porte alto, semelhante ao sorgo vassoura, porém bem mais vigoroso. A primeira experiência, quando semeado na safrinha tardia, apresentou produção de cerca de 2.000 kg/ha de matéria seca com menos de 90 mm de precipitação. Quando semeado no início das águas, o ciclo até o florescimento é mais longo e a produção de palhada é excelente (Figura 3).
As informações disponíveis até o momento
não são suficientes para difundir este material, considerando
que falta uma descrição botânica detalhada.
Deve-se observar também o efeito alelopático
para algumas culturas, devido aos compostos fenólicos liberados
durante a decomposição de sua palhada.
Após o manejo da fitomassa deve-se esperar
um período de aproximadamente três dias para a semeadura
da cultura principal.
Outro aspecto que deve ser levado em consideração
é o momento de realização do manejo para esta gramínea.
A experiência obtida com semeadura no início
das águas, mostrou que pode-se realizar um manejo mecânico
por volta dos 50 dias e esperar a rebrota para aplicação
do herbicida.
Campos de experimentação
A colheita mecanizada de cana-de-açúcar sem queima vem crescendo a cada ano e criando um ambiente agrícola complexo. Iniciativas de alguns fornecedores e algumas usinas têm sinalizado para a não-realização do preparo de solo em área de "cana crua", por ocasião da renovação do canavial. Nessa situação tem sido realizada a semeadura direta da soja sobre a palhada da cana (Figura 4).
Considerando que normalmente nestas áreas há necessidade
de realização de calagem, instalou-se experimento envolvendo
diferentes doses de calcário e sistemas de cultivo, direto e
convencional.
Verificou-se neste primeiro ano o efeito destes tratamento
sobre a produção da soja IAC-Foscarim 31, semeada em dezembro.
Não houve diferença significativa na produção
da soja entre as diferentes doses de calcário.
Para a média das doses de calcário,
o sistema convencional produziu mais que o plantio direto, embora a
diferença não tenha sido significativa, respectivamente
2.882 kg/ha e 2.720 kg/ha. Após colheita da soja, fez-se o plantio
da cana-de-açúcar.
Outro experimento, parte integrante de programa de
mestrado de aluno da UNESP-Campus de Jaboticabal, foi instalado para
o estudo de doses de nitrogênio em cobertura e inoculação
de bactérias fixadoras, em dois cultivares de feijoeiro. No primeiro
ano utilizou-se palhada de milho e no segundo ano a de sorgo guiné.
Os resultados até o momento mostram que a produção
oriunda das parcelas inoculadas não diferiram estatisticamente
da dose recomendada de nitrogênio aplicado em cobertura (50 kg/ha).
O Núcleo de Agronomia da Alta
Mogiana participa do projeto "Imobilização do nitrogênio
da adubação de milho, antecipada e convencional, em sistema
de plantio direto". Este projeto está sendo realizado em parceria
com a Fundação ABC e Universidade Federal de Uberlândia.
O trabalho consiste na semeadura do milho sobre palhada de aveia preta,
utilizando fertilizante nitrogenado marcado com o 15N em pré-semeadura
e no sistema convencional. A conclusão deste projeto, coordenado
pelo PqC Heitor Cantarella do Centro de Solos e Recursos Agroambientais,
está prevista para dois anos e conta com financiamento da FAPESP.
Campos de demonstração ou vitrines tecnológicas
Estas áreas são montadas com o intuito de validar ou divulgar
tecnologias, sendo resultado de parcerias com empresas do setor privado
e cooperativas. Durante este ano foram realizados três eventos
que incluíram vistas práticas ao campo com demonstração
de máquinas semeadeiras e outros equipamentos, totalizando cerca
de 350 visitantes.
O primeiro evento foi realizado com a
Agroceres Sementes S/A e consistiu de semeadura de uma área de
2 ha com milho híbrido hiper-precoce em diferentes populações
de plantas, utilizando espaçamento de 0,45 m.
Esta iniciativa proporcionou muitas observações
técnicas pois, neste espaçamento e no sistema plantio
direto, muitas modificações tiveram que ser realizadas
para conseguir uma produtividade média de 320 sacos por alqueire.
Verificou-se a viabilidade da colheita com máquina
convencional, todavia com menor rendimento de trabalho e maior perda
(Figura 5).
Foram organizadas, ainda, duas palestras em parceria com a Monsanto
e a Cati, direcionada para Engenheiros Agrônomos. Nesse evento,
o encerramento foi realizado no Núcleo de Agronomia da Alta Mogiana,
com demonstração de máquina semeadeira em área
com palhada de aveia preta.
Por ser um evento mais direcionado para técnicos,
foi possível abranger mais profundamente os assuntos e ampliar
as discussões.
Realizou-se, também, a "Reunião Técnica
Sobre Plantio Direto", evento que constou de palestras, visita aos experimentos
do IAC e áreas de demonstração das empresas parceiras,
Monsanto, Agroceres, Marquezan e Coopercitrus. Por ocasião deste
evento foram aplicados questionários, com a finalidade de fazer
prospecção de demandas de pesquisas sobre plantio direto.
Denizart
Bolonhezi e José Carlos Vila Nova Alves Pereira
IAC - Núcleo de Agronomia da Alta Mogiana
fone: (16) 637-2650
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