O
Agronômico, 51(1), 1999
IMPACTO DO MERCOSSUL NO NEGÓCIO AGRÍCOLA PAULISTA
Políticas públicas, aglomeração industrial,
rápida urbanização, etc., como condicionantes
internos e demanda por proteínas e oleaginosas, alta nos preços
do petróleo, entre outros, como condicionantes externos, imprimiram
durante os anos 70 elevado dinamismo à agroindústria
paulista. Tal desempenho manteve-se na década de 80 com o acréscimo
da cadeia de laranja e outras frutas cítricas e maior penetração
dos produtos agrícolas processados industrialmente junto aos
consumidores locais ( margarinas, iogurtes, cortes especiais de carnes,
embutidos, alimentos semi-prontos, etc.). Esse conjunto de fatores
fez de São Paulo um estado diferenciado, possuindo um parque
agro-industrial vigoroso e com plena capacidade para o atendimento
de demandas locais ou externas (Vegro et al., 1997).
Em 1991, a produção
total da indústria agroalimentar foi estimada em 70 milhões
de toneladas métricas, das quais 55 milhões aproximadamente
destinavam-se ao mercado interno. As empresas estão concentradas
na Região Sudeste e em 1993 50,4% delas situavam-se nessa região,
cuja característica é a participação expressiva
de micro e pequenas unidades (Programa, 1993).
Para atender à demanda
por matéria prima no Estado de São Paulo, ocupa-se área
com culturas, pastagens e reflorestamento ao redor de 18 milhões
de hectares. Não tendo esse estado mais fronteira agrícola
a ocupar qualquer expansão de área de atividades agrícolas
que não ocorra por uso mais intensivo da terra, será
feita por substituição de outras atividades. Ocorre,
portanto, uma reorientação do uso do solo em São
Paulo, associado a processo de valorização de terras.
No período de dez
anos, 1985-1995, isso acarretou o intercâmbio de área
cultivada da ordem de 2,8 milhões de hectares cedidos principalmente
por pastagem natural, café, reflorestamento, arroz, feijão,
algodão, amendoim e milho; 96,8% foram incorporados por pastagem
cultivada, laranja, cana para indústria e soja, atividades
de maior rentabilidade econômica (Camargo et al., 1995).
Como resultado, a agricultura
paulista tem passado por profundas mudanças. Paradoxalmente,
perde participação no produto bruto do Estado ( de 10%
para 5% em 20 anos) mas aumenta sua influência na economia por
meio dos complexos agroindustriais, chegando a cerca de 30% do produto
global do Estado. Essas mudanças estão longe de serem
tranqüilas, e o setor enfrenta desafios e dilemas pela frente
. A infra-estrutura de transportes e comunicações que
serve o setor é ineficiente, com custos até cinco vezes
maiores que seus concorrentes internacionais. A reconversão
instalada espontaneamente e resultante de políticas públicas
faz-se acompanhar, entre outros, de desemprego de mão de obra
não qualificada e maior migração para periferia
de cidades industriais (Teixeira, 1996).
Nos últimos 40 anos,
a população rural diminuiu de 60 para 15%, o que exige
que a agricultura seja atividade mais eficiente para produzir para
número crescente de habitantes dos centros urbanos (Azevedo,
1996).
A década de 90,
marcada por um novo ambiente competitivo, busca qualidade dos produtos
levando-se em conta sua aparência, composição,
sanidade, regularidade de produção, distribuição
e adaptação às práticas alimentares que
integram os novos estilos de vida.
Cada vez mais o consumidor
deseja colocar na mesa qualidade e variedade: variedades de sabores
e de formas, qualidade garantida pela origem do alimento e pela transparência
do percurso produtor – comerciante. Os desejos e os temores do consumidor
– além do melhor preço – impulsionam a inovação
do setor agroalimentar. Hoje as palavras de ordem são a facilidade
de uso, prazer, saúde e segurança (França-Flash,
1997).
Esses novos hábitos
alimentares direcionam-se para produtos que apresentam pragmatismo
no preparo. A tendência é adequar o alimento a aspectos
específicos do indivíduo, como apropriado para dietas
de baixa caloria, para esportistas, para indivíduos em crescimento
ou na terceira idade, e para os que buscam alimento natural (Wilkinson,
1995).
A agricultura transformou-se
em negócio agrícola, enquanto a internacionalização
dos mercados agrícolas se acentuou. O vetor de crescimento
é constituído pelas cadeias produtivas agroindustriais
que apresentam problemas sérios. A eqüidade da distribuição
entre os segmentos dessas cadeias precisa ser equacionada para aproveitar
o potencial de expansão e melhorar a administração
de conflitos. A liderança das cadeias concentra-se nos segmentos
industriais, ignorando a organização dos produtores
(Zylbersztajn, 1995).
Como fator incrementador
das mudanças citadas surge o Mercado Comum do Sul (MERCOSSUL),
que é o bloco econômico que institui uma zona de livre
comércio na América do Sul. Surge a partir de programas
de cooperação econômica entre Brasil e Argentina,
na década de 80. Criado pelo Tratado de Assunção,
de 1991, o MERCOSSUL entrou em vigor em 1o. de janeiro
de 1995. Pelos acordos, aproximadamente 90% das mercadorias fabricadas
nos países-membros circulam livres de alíquotas de importação.
Cada país-membro, no entanto, tem um grupo de produtos importantes
para a sua economia, sobre os quais incide uma tarifa diferenciada.
Nesses casos, as taxas alfandegárias sobre esses produtos devem
ser reduzidas gradativamente, para que as indústrias locais
se adaptem à concorrência , até chegar a zero
no ano 2000 (SAA,1997).
O MERCOSSUL é o
quarto bloco mais importante do mundo. Do ponto de vista agroindustrial,
suas potencialidades são bastante significativas. Em 1995,
o bloco detinha: 29% da oferta mundial de soja, 28% da exportação
mundial de óleo de soja, 13% da oferta mundial de carne bovina,
41% do rebanho bovino do mundo ocidental, 6,5% da produção
mundial de milho, 6,3% da produção mundial de algodão
e 55% do total de exportações mundiais de farelo e torta
de soja (SAA,1997).
O MERCOSSUL representa
uma população de 207 milhões de habitantes e
tem um Produto Interno Bruto (PIB) total de US$ 859,8 bilhões.
O PIB per capta do bloco é de US$ 4.139. A redução
de impostos fez com que o comércio entre eles triplicasse,
passando de US$ 4 bilhões, em 1990, para US$ 14,5 bilhões
,em 1995.
O agribusiness brasileiro
importa ao todo cerca de US$ 7 bilhões; do MERCOSSUL importa
US$ 3,5 bilhões e para esse bloco exporta cerca de US$1,2 bilhão,
conforme dados de 1996. O Brasil exporta para os países da
região, principalmente para a Argentina , produtos processados
provenientes do agribusiness, com maior valor agregado: papel
e celulose, cacau e café, açúcar, derivados de
algodão (fios), carnes de frango e suínos, tabaco, são
os principais.
Por sua vez o agribusiness
brasileiro importa, em especial da Argentina, produtos básicos
como: trigo, outros cereais ( milho, arroz, cevada, ...) carne bovina,
lácteos, algodão, legumes e frutas (Teixeira,1997).
Tendo por fundo tal situação
comercial vigente, verifica-se impacto distributivo do MERCOSSUL por
produto, por região e por estrutura produtiva. Por região,
verificou forte impacto a começar pela região de fronteira,
sem a mesma fertilidade do solo argentino e irradiou-se, em ondas,
em direção ao centro do Brasil; por estrutura produtiva,
afetando as pequenas propriedades, em especial as produtoras de leite,
algodão, de trigo, que não apresentam condições
competitivas similares, em especial, à Argentina. Para esses
falta, ainda, uma política de reconversão que os habilite
a continuar produzindo.
Ao adaptar-se a esses novos
tempos, a essas novas condições de mercado aberto, ocorreram
problemas afetando as estratégias de sistemas agroindustriais
completos, situações muitas vezes favorecendo um integrante
da cadeia produtiva e não outro; brasileiros deslocaram-se
para Argentina, Uruguai e Paraguai, ultrapassando fronteiras e instalando
suas culturas em solos mais férteis ou usufruindo de condições
favoráveis oferecidas por aqueles países; cooperativas
importantes inviabilizaram-se, agroindústrias faliram, produtores
deixaram suas propriedades.
Quanto ao impacto distributivo
do MERCOSSUL por produto, podem ser citados alguns exemplos: olericultura,
triticultura, cotonicultura e floricultura.
A produção
total estimada da olericultura brasileira, excetuando-se as liliáceas
condimentares ( cebola e alho) é da ordem de 11 milhões
de toneladas anuais, às quais corresponde um valor global de
produção próximo de US$ 2 bilhões. Desse
total, cerca de 47% da produção física corresponde
às culturas das hortaliças de frutos e 7% às
das hortaliças herbáceas. Além de grande produtor,
São Paulo constitui-se no principal mercado consumidor e exerce
papel determinante na definição das condições
de comercialização das hortaliças em nível
nacional. A produção global da olericultura paulista,
em 1995, foi de cerca de 3,1 milhões de toneladas, às
quais corresponde um valor total de produção de US$
513,8 milhões. A área cultivada, considerando o universo
composto pelos principais produtos, foi de 127,4 mil hectares (Camargo
et al., 1993; Junqueira & Cabrera, 1997).
A olericultura, a despeito
de deter apenas 0,7% da área agrícola do Estado de São
Paulo, demanda 7,1% da força de trabalho anual na agricultura,
colocando-se na quarta posição num ranking de
28 culturas anuais e perenes analisadas em estudo da Fundação
SEADE (1996).
Em relação
ao comércio internacional de hortaliças, observa-se
que o Brasil é um exportador inconstante, participando com
cerca de 20 produtos in natura, entre as quais apenas gengibre,
beterraba, cenoura e rabanete adquirem volumes significativos. Para
as hortaliças transformadas ou em conserva, o produto mais
importante é o tomate processado, seguido pelo cogumelo e o
pepino. Para a maioria dos produtos exportados, os principais países
de destino são os componentes do MERCOSSUL e, ainda, outros
da América do Sul. Já as hortaliças utilizadas
como condimentos, como o gengibre e a pimenta hortícola, são
exportados para países como os Estados Unidos, Alemanha, Holanda,
Japão e Reino Unido. Por outro lado, o Brasil vem mostrando
uma tendência crescente de importações de olerícolas,
entre as quais se destacam, também, cerca de 20 espécies.
Em termos de volume, as espécies in natura que mais
se destacam são a batata, a cebola e o alho. Na forma processada,
as maiores quantidades são de tomate e batata. Os maiores exportadores
de hortaliças para o Brasil são os Estados Unidos, Espanha,
França, Alemanha, Canadá, Holanda, Chile e China. A
Argentina aparece como importante exportadora de alho e cebola (Camargo
et al. , 1993; Makishima, 1996).
Com a criação
do MERCOSSUL, os argentinos elegeram o Brasil seu mercado preferencial
e aumentaram sua produção de alho nos anos noventa.
A partir de 1992 apareceu no mercado o alho chinês com preços
abaixo do custo do alho brasileiro. Nos últimos anos (1994-95)
a quantidade ofertada pela Argentina e pela China no total foi 40%
do abastecimento em partes equivalentes. O preço declarado
para o alho argentino ao comércio brasileiro é de US$1,00/kg
e o alho chinês é de US$0,60/kg. Com isso a produção
brasileira diminuiu em 26% (Trani et al., 1994 ; Camargo et
al., 1997).
Os países do MERCOSSUL
consomem cerca de 138 mil toneladas/ano e espera-se em 10 anos chegar-se
ao consumo de cerca de 280 mil toneladas/ano. O Brasil produziu em
1994 cerca de 85 mil toneladas em 17.532 hectares e importou 34 mil
toneladas aproximadamente, ou 28,5% do que necessitava. São
Paulo, em 1994, produziu 2.180 toneladas em 383 ha (Camargo et
al,1997).
O mercado de cebola no
setor produtivo brasileiro movimenta cerca de US$ 200 milhões
anuais, os produtores participam com 25% e as safras são distribuídas
durante 9 meses do ano. (Camargo et al., 1997). A descrição
do mercado de 1990-1995 pode ser vista como mercado com excesso de
produção ( 900 mil toneladas/ano; área de 75200
ha. e São Paulo respondendo por 31% dessa produção),
já que o Brasil consome a nível de mercado atacadista
no máximo 840 mil toneladas/ano e a produção
foi superior mesmo contabilizando as perdas e descartes. Além
disso houve a entrada de cebola argentina, 91mil toneladas/ano no
período 1991/94 (Camargo et al., 1997).
A partir de 1991 com a
privatização e desregulamentação da comercialização
do trigo nacional e importado ficou caracterizada fase de transição
frente às políticas de comércio exterior e principalmente
as relativas à integração do MERCOSSUL. Em conseqüência
das dificuldades surgidas, a produção brasileira de
trigo vem sendo reduzida desde 1987, quando atingiu volume recorde
de 6 milhões de toneladas, chegando no ano de 1995 a produzir
apenas 1,7 milhão de toneladas (Silva et al., 1997).
De acordo com as exigências
técnicas atuais estima-se em 16,5 milhões de hectares
a área total cultivável com trigo, em diversas regiões
do Brasil (Fernandes et al.,1985) , sendo que a extensão
recorde ocorreu em 1979, quando foram cultivados 4,1 milhões
de hectares. Em 1995, foram plantados apenas 993,5 mil hectares.
A participação
do Estado de São Paulo na produção nacional de
trigo hoje é de 2,3%, tendo anteriormente chegado a 10%. O
parque moageiro paulista é responsável por cerca de
30% do processamento nacional de trigo, com 19 moinhos, sendo um especializado
na moagem de trigo duro (Silva et al., 1997).
O mercado brasileiro de
flores e plantas ornamentais movimenta, anualmente, cerca de R$ 800
milhões, sendo o Estado de São Paulo responsável
por 80%. Há expectativas de aumento de 20% anual nos próximos
anos (Arruda et al., 1997). De modo geral, a produção
é desenvolvida em pequenas propriedades, cerca de 1500 com
área média cultivada de 2,5 hectares, e marcante característica
de produção familiar, totalizando cerca de 4 mil hectares.
Na produção trabalham cerca de 13.000 pessoas e na distribuição,
2.000. O varejo é o segmento que envolve maior número
de profissionais do mercado de flores, existindo, no Estado de São
Paulo, aproximadamente, 2.500 estabelecimentos que empregam 12.500
pessoas. Na indústria de insumos e acessórios estão
1.000 funcionários. O setor como um todo é responsável
pela geração de aproximadamente 28.500 empregos diretos
(SEADE,1997).
Além de custos altos
decorrentes de fretes para a Europa, Japão e Estados Unidos,
algumas restrições adicionais dificultam as exportações
brasileiras, como a deficiente infra-estrutura de portos e aeroportos,
a burocracia governamental, o pequeno volume, ainda, a ser exportado
e a necessidade de aprimoramento de qualidade para competir no mercado
internacional (Arruda et al., 1997).
A participação
do Brasil como ofertante no mercado internacional de algodão
tem sido muito fraca. Situado entre os grandes exportadores mundiais
até 1973, o Brasil passou, a partir de então, a reduzir
gradativamente suas exportações em decorrência
sobretudo da gravosidade do produto (Nogueira Júnior, 1980).
Apesar de o processo de
abertura do mercado ter sido iniciado em 1988, foi durante os três
últimos anos que as internalizações assumiram
maior magnitude, resultando em déficit de US$800 milhões
no saldo da balança comercial de produtos têxteis em
1995. O desempenho da balança comercial de produtos têxteis
no MERCOSSUL reflete a mesma tendência em relação
aos demais países. A indústria nacional, que era superavitária
com a Argentina e Uruguai até 1993, passou a ser deficitária
nos anos seguintes, alcançando saldo negativo de US$249 milhões
em 1995 (SINDITÊXTIL/ABIT, 1996).
Enquanto em 1985 a área
plantada com algodão foi de 3,7 milhões de hectares,
na safra 1996/97 apenas 750 mil hectares foram utilizados, com queda
de produção de 300 mil toneladas. Os produtores locais
só atendem 40% do consumo interno, estimado em 850 mil toneladas.
Devido ao fato de as importações
brasileiras de algodão estarem crescendo ao longo dos anos,
estima-se que em 1997 o Brasil seja o maior comprador mundial de algodão
onerando a balança comercial em aproximadamente US$1 milhão
(Gonçalves, 1997; Barbosa et al., 1997).
Paralelamente à
crise, que afetou pesadamente regiões produtoras como o norte
do Paraná e o Pontal do Paranapanema, em São Paulo,
a cotonicultura brasileira ia sendo redesenhada. Em oposição
ao abandono da cultura pelos pequenos e médios agricultores
das regiões tradicionais, grandes produtores do Centro–Oeste
encontraram no algodão uma alternativa extremamente rentável
ao cultivo da soja. Atualmente, o Centro–Oeste responde por 31% da
produção brasileira (Gonçalves, 1997).
Na primeira etapa do estabelecimento
do MERCOSSUL prevaleceram, para definir o sentido do fluxo de produtos
do agribusiness, os fatores estruturais anteriores à
integração. Nessas condições os parceiros
do MERCOSSUL - Argentina, Paraguai e Uruguai - apresentavam vantagens
nas commodities, com baixo custo de produção
e melhor infra-estrutura . Ao Brasil destacaram-se as vantagens no
valor adicionado, devido à escala de plantas agro-industriais,
melhor nível tecnológico e elevada capacidade ociosa.
Mais intensamente a partir
de 1996, verificam-se alguns fatos que dizem respeito à dinâmica
desse processo e que deverão prevalecer. Certamente deixa-se
de usufruir de vantagens comparativas anteriormente existentes e passa-se
a disputar vantagens competitivas no comércio intra-bloco (Yank,1997).
Dentro desse enfoque consegue-se
verificar o deslocamento do agribusiness brasileiro para o
centro-oeste do Brasil, em especial na produção de commodities;
verificam-se novos investimentos em escala e tecnologia no país;
fusões e aquisições de empresas do agribusiness
se avolumam (ABIA,1996); novas formas contratuais ocorrem (ex.: aluguel
de fábricas por produtores de laranjas paulistas; co-produção
); melhoria de infra-estrutura existente como um todo ( telecomunicações,
privatizações de empresas públicas, rede rodoviária
no centro-oeste , portos,...).
A partir de 1996 as privatizações
tomaram forte impulso. De 1997 a 2002 as privatizações
deverão levar a receitas da ordem de R$80 bilhões, especialmente
energia elétrica e telecomunicações (Kandir,
1997).
O Brasil pode cultivar
soja a custo tão baixo quanto os Estados Unidos e a Argentina,
os outros maiores produtores mundiais, pelas excelentes condições
de crescimento das plantas e baixo custo das terras. Mas em anos quando
preços internacionais são baixos, como em 1995, os produtores
brasileiros distantes dos portos - Mato Grosso, Goiás, Tocantins
- são prejudicados pelo fato de que seus custos para levar
soja aos portos e navios são, pelo menos, duas vezes maiores
que os da Argentina e Estados Unidos ( Knight, 1997).
A inserção
mundial da agropecuária brasileira tem oportunidade de continuar,
mantido o atual quadro de estabilização interno. O MERCOSSUL
é um fator que alavanca a agroindústria brasileira,
potencializando escalas industriais maiores. Entretanto, é
nas cadeias sensíveis das commodities tradicionais que
essa inserção se mantém, não havendo sinais
evidentes de que a tendência do País a se posicionar
de forma favorável no comércio exterior de produtos
de alta qualidade e/ou de valor adicionado se viabilize a curto ou
médios prazos (Igreja et al. ,1997).
Como desafio futuro que
se instala, verifica-se a necessidade de reconfiguração
do setor público que deverá: homogeneizar políticas,
superar burocracias de fronteiras, definir política de tarifas,
taxas, subsídios e juros compatíveis com a internacionalização
de mercados e globalização da economia, dar tratamento
especial ao estabelecimento de normas técnicas, aos programas
de sanidade vegetal e animal, e no envolvimento do setor privado (
Yank,1997; ABIA,1996).
Desafio também fica
para a reestruturação do setor privado que está
ocorrendo como avalanche, na ordenação de cadeias produtivas
e para desfrute das vantagens competitivas estabelecidas (Yank,1997).
A partir de agora a transformação
da agricultura dar-se-á num ambiente político cada vez
mais aberto aos efeitos da atividade econômica sobre o meio
ambiente. A agricultura poderá influenciar a mudança
climática, mas também será fortemente influenciada
por ela. Crescerá , pois, de importância a questão
da sustentabilidade das atividades do homem, inclusive a agropecuária.
Cada vez mais se afirmará a agricultura baseada em ciência
e tecnologia: de elevada produtividade, mas com baixo potencial de
causar danos ao meio ambiente (Teixeira,1994; Silva, 1994; Silva,
1996).
As transformações
recentes da economia mundial , em um mundo cada vez mais globalizado,
tornaram a capacitação nacional em ciência, tecnologia
e educação mais importantes do que nunca para aumentar
a produção, melhorar a qualidade de vida da população
e enfrentar os problemas sociais, urbanos e ambientais (Schwartzman,
1993).
A mudança no perfil
da demanda de alimentos deverá provocar a busca de novos processos
produtivos. Os produtos demandados deverão apresentar diferenciado
padrão de qualidade, que só pode ser conseguido via
tecnologia. O novo paradigma propõe a utilização
mais intensa de novas tecnologias, intensificação de
serviços e até mesmo o aparecimento de novos produtos
e processos (Araújo et al., 1995; Santiago, 1997). Num
processo de competição internacional a tecnologia é
o principal fator de competitividade. Devido a isso nenhum país
que aspira ser competitivo pode deixar de ter uma política
tecnológica (Ripper Filho, 1996; Pray, 1996).
Embora a análise
de tendências se choque, às vezes, com a realidade do
surgimento de mudanças políticas, tecnológicas
e sociais, que alteram qualitativamente os cenários, no âmbito
do futuro do desenvolvimento tecnológico da América
Latina não parece que, a curto e médio prazos, se produzam
mutações que modifiquem a situação atual,
onde o fator tecnológico é relativamente marginal e
o progresso científico e tecnológico não está
entre as prioridades da agenda política e social (Sebastián,1997).
Essa constatação,
aliada ao processo de definir novo papel para o estado, cuja prioridade
deixa de ser a intervenção direta no negócio
agrícola e passa a apoiar uma agricultura pluralista na conquista
de competitividade internacional e a melhoria da qualidade de vida
da população, sustentada por ciência e tecnologia
, exige que repensar a política agrícola do Estado seja
tarefa urgente e inadiável.
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João
Paulo Feijão Teixeira,
Instituto Agronômico, Centro de Genética, Biologia Molecular
e Fitoquímica.
Tel.: (019) 241-5188 ramal 310.