O Agronômico, 51(1), 1999
Projeto Genoma da Xylella fastidiosa
Em uma iniciativa inédita
e de alto impacto na comunidade científica nacional e internacional
a FAPESP financia o primeiro Projeto Genoma no Brasil e o primeiro
de um organismo fitopatogênico no mundo, tendo sido escolhida
a bactéria Xylella fastidiosa, agente causal da clorose
variegada dos citros (CVC). Os fatores que levaram a FAPESP a induzir
e apoiar um projeto dessa natureza incluem: a) necessidade de desenvolvimento
da área de biotecnologia vegetal, principalmente capacitação
de recursos humanos e melhoria de infra-estrutura; b) a competitividade
internacional do setor agrícola brasileiro, muito bem representado
pela citricultura; c) o amplo espectro de aplicações
em áreas básicas e aplicadas, em problema de interesse
brasileiro, principalmente; d) o desenvolvimento de interações
e a formação de uma rede de colaboração;
e) a inserção internacional de projetos dessa natureza;
f) a disponibilidade de tecnologia de seqüenciamento em larga
escala; g) o interesse e a participação do setor privado,
com efetiva contrapartida financeira.
Em um processo de competição
entre cem grupos no Estado de São Paulo foram selecionados
32 laboratórios, sendo que desses pelo menos sete são
da área de Fitopatologia. Todos foram capacitados em equipamentos
para todas as etapas do projeto, desde cultivo e transformação
de bactérias, construção de biblioteca por "shut
gun", mini-preparação de plasmídeos, seqüenciamento
automático e análise dos resultados, montagem dos cosmídeos
e anotação. Inicialmente foram selecionados três
laboratórios com maior experiência em seqüenciamento
que seriam responsáveis pelo treinamento de outros grupos e
seriam também responsáveis pelo seqüenciamento
completo do genoma, cada um utilizando-se de estratégias diferentes.
A avaliação e o acompanhamento dos projetos ficaram
a cargo de uma comissão de três pesquisadores estrangeiros
com experiência em projetos dessa natureza e dois pesquisadores
brasileiros, com a coordenação geral da FAPESP e participação
do CNPq com bolsas tipo RHAE.
Para iniciar o seqüenciamento
foi escolhido um isolado com comprovada patogenicidade, com o qual
o postulado de Koch já havia sido fechado. Tão logo
se iniciou o projeto ficou decidido que a melhor estratégia
para todos os laboratórios seria o seqüenciamento de bibliotecas
"shut gun" do DNA dos cosmídeos. Todas as bibliotecas de cosmídeos
construídas foram-no única e exclusivamente com DNA
desse isolado em um único ciclo de crescimento, reduzindo-se
assim possibilidades de recombinação genética
entre ciclos. Uma biblioteca de cosmídeos de 40 a 50 kb foi
montada em Lawrist5 com uma cobertura de dez vezes o genoma, estimado
na época em 2,1 Mb, e em colaboração com o grupo
de Heildelberg, onde também se iniciou a construção
do mapa físico. Cada laboratório iniciava o seqüenciamento
de bibliotecas de plasmídeos, obtidas por fragmentação
do DNA do cosmídeo por nebulização ("shut gun").
Iniciava-se a corrida para decifrar o genoma da Xylella fastidiosa.
À medida que as
seqüências eram produzidas, precisavam ser avaliadas quanto
ao tamanho e à qualidade das bases, sendo então utilizadas
para a montagem dos fragmentos maiores ("contigs") até a montagem
completa do cosmídeo. Cada laboratório, em colaboração
com o laboratório de Bioinformática, era encarregado
da montagem de seus cosmídeos. Somente a partir da avaliação
de qualidade a seqüência completa era validada e poderia
receber o pagamento equivalente por parte da FAPESP. A montagem final
do genoma ficou sob a responsabilidade do laboratório de Bioinformática.
O cronograma previa o término
do projeto em maio de 2000. No entanto, após um ano, a rede
ONSA (Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis), consolidando
um instituto virtual de pesquisa genômica, está com o
projeto em fase final de montagem em função, principalmente,
da forte interação e competição entre
os diversos grupos envolvidos. Entre esses estão incluídos
laboratórios do Instituto Agronômico, do Instituto Biológico,
da ESALQ e CENA/USP, UNESP/Botucatu e Jaboticabal e algumas universidades
particulares, todas do Estado de São Paulo. A participação
do Fundecitrus foi um dos fatores de estímulo ao projeto. A
coordenação de DNA está a cargo do Instituto
Ludwig e a de informática, do Laboratório de Bioinformática
da Unicamp.
Nessa etapa final do projeto
observa-se que o genoma completo da bactéria está em
torno de 2,4 a 2,6 Mb, com um mega-plasmídeo e um mini-plasmídeo
de 50 kb e 1,2 kb respectivamente. Pelo número de seqüências
submetidas ao laboratório de Bionformática pode-se assegurar
que o genoma já está coberto pelo menos 30 vezes. Seqüências
de transposons e de fagos foram também já identificadas
no genoma. A anotação de todos os ORFs ("open read frames")
está em processo de conclusão, demonstrando regiões
de grande homologia com outros genomas de bactérias.
Concomitantemente ao seqüenciamento
iniciou-se a análise funcional do genoma no sentido de descobrir
quais as funções dos genes e de que modo eles podem
ser utilizados como alvo no controle da bactéria. Não
só por uma análise direta desses genes por técnicas
de indução de mutação, como também
por analogia com genes já conhecidos de outros organismos,
alguns deverão ser selecionados para serem utilizados como
alvo visando ao controle. É o projeto Genoma Funcional,
já em andamento. É importante destacar que essas e outras
informações geradas no Projeto Genoma serão de
fundamental importância no desenvolvimento de todas as estratégias
futuras de controle desse importante patógeno dos citros. Sem
informações dessa natureza não seria possível
desenvolver um efetivo controle dessa bactéria, cujo potencial
de prejuízo é de amplo conhecimento da citricultura.
Sem dúvida o Projeto
Genoma pode ser considerado um marco no ciência brasileira e,
especialmente, da Fitopatologia brasileira. Ao lado de sua capacidade
de formar recursos humanos, abre novas abordagens de conhecimento
e controle de doenças de plantas.
Outras informações
sobre a rede ONSA podem ser encontradas em http:\\www.fapesp.br.
Marcos
Antônio Machado
Instituto Agronômico, Centro de Citricultura Dr. Sylvio Moreira
fone: (19) 546-2589