CRITÉRIOS PARA AVALIAR A QUALIDADE DO PLANTIO DIRETO
A agricultura realizada com plantio direto é uma realidade. A
cada dia ganha novos adeptos e muitos defendem a técnica somente
com base no sucesso inicial, ou seja, no acerto de conseguir, pela primeira
vez, semear na palha. O plantio direto não é e nem pode
ser simplificado ao ponto de ser considerado uma técnica que
somente elimina as operações de mobilização
do solo e consegue controlar o mato com o uso de herbicidas. Pode-se
considerar o plantio direto como a mais tropical das técnicas
de manejo do solo e muitos ainda sentem dificuldades para obter sucesso
em todas as fases do processo operacional, face sua complexidade. Apesar
da crescente popularização das informações
técnicas sobre o sistema, alguns pontos básicos, bem importantes,
são esquecidos e comprometem o principal fator de sucesso do
plantio direto que é a perenidade produtiva dos solos.
Para a adoção
e prática contínua do plantio direto o agricultor deve
ter em mente que o sucesso do manejo é um conjunto de pequenos
detalhes em cada operação e, para isso, é preciso
praticar e conhecer a fundo o solo, as plantas, as máquinas e
as técnicas de rotação de culturas.
É também muito
importante que o agricultor adote critérios para avaliar o seu
desempenho e, com essa auto-avaliação, passe a adotar
também o hábito de buscar a melhoria contínua.
Para avaliar a qualidade
de uma área cujo sistema de plantio direto está implantado
ou em fase de implantação, é necessário
averiguação dos resultados buscando analisar alguns detalhes
relacionados principalmente com a qualidade produtiva do solo, cobertura
morta e cultura instalada.
Os parâmetros relacionados
com a qualidade produtiva do solo podem ser elencados com base nas condições
em que se encontram o "perfil cultural" ou seja, a camada de solo em
que ocorrem as reações químicas, físicas
e biológicas e o enraizamento. Para tanto, o agricultor deverá
fazer uma trincheira com 1 m de comprimento, 0,50 m de largura e 0,60
m de profundidade, que irá servir para averiguar e coletar dados
referentes às propriedades físicas, químicas e
biológicas do solo. Com relação às propriedades
físicas do solo, o exame em uma das laterais da trincheira deve
revelar a presença ou ausência de camada compactada em
subsuperfície. Em caso positivo deve-se determinar a posição
correta, bem como a espessura da camada compactada. Em casos graves
a compactação condena a área, que necessitará
de escarificação, subsolagem ou mesmo aração
profunda. Em resumo, a compactação severa do solo condena
o plantio direto a baixas produtividades.
A espessura da camada humificada,
aquela camada superficial do solo que tem cor mais escura em função
da decomposição dos restos de cultura, também deve
ser examinada. Embora esse parâmetro seja pouco estudado, considera-se
que à medida que essa espessura aumenta, melhores são
as condições para a planta produzir. Em resumo, o plantio
direto deve, ano a ano, aumentar a espessura da camada humificada.
Um outro parâmetro
físico importante, mas pouco divulgado, é a MOL do solo,
ou seja, a matéria orgânica livre, que é o material
orgânico presente no solo mas que ainda não entrou em processo
acelerado de decomposição, como os pedaços de raízes,
fragmentos de caule, restos de colheita etc. Esse material, distribuído
no perfil cultural do solo, tem o papel de prevenção contra
a compactação, pois aumenta a compressibilidade, propiciando
aeração e diminuindo o efeito do rearranjamento das partículas
do solo causado pelo tráfego de máquinas agrícolas.
A MOL do solo pode ser determinada em laboratórios mas, no campo,
é avaliada visualmente pela constatação em torrões
de solo retirados em profundidade. Em resumo, a presença abundante
de MOL no perfil cultural previne as áreas de plantio direto
dos efeitos da compactação.
Os principais parâmetros
de solo ligados às propriedades químicas que devem ser
monitoradas pelo agricultor são o pH, o teor de alumínio
e a saturação por bases. Nas paredes da trincheira pode-se
determinar, facilmente, o pH em diferentes profundidades, com um peagâmetro
portátil de leitura direta. Em pH baixo a planta tem dificuldades
em desenvolver-se, os fertilizantes ficam imobilizados e também
acidificam o solo, as bactérias fixadoras de nitrogênio
perdem a eficiência. Em resumo, em plantio direto o pH do solo
deve ser monitorado constantemente.
A presença do alumínio
em níveis tóxicos pode ser confirmada pela análise
química do solo coletado nas diferentes profundidades de uma
das paredes da trincheira. Visualmente pode-se supor a presença
desse elemento tóxico quando o perfil não apresentar sinais
de compactação, porém as raízes não
se desenvolvem, restringindo-se a crescer somente nas camadas superficiais.
Em resumo, áreas de plantio direto para altas produtividades
não devem apresentar alumínio em níveis tóxicos.
Com relação
aos parâmetros para monitoramento da porcentagem de saturação
por bases (V %), é imprescindível a análise química
que é realizada por laboratórios. Os teores de V % são
ajustados para culturas em rotação respeitando o tipo
e localização da lavoura. Em resumo, o monitoramento da
saturação por bases ajuda a adequar quimicamente o solo
local, permitindo respostas mais rápidas do plantio direto.
Com relação
às propriedades biológicas do solo, o agricultor pode
promover averiguações nos parâmetros ligados à
porosidade natural, enraizamento, nematóides e nódulos
de bactérias fixadoras de nitrogênio. Na trincheira pode-se
visualizar a porosidade do solo na forma de galerias resultantes das
atividades de larvas de insetos, minhocas, besouros e cupins, como também
atividades do sistema radicular das plantas, sejam elas cultivadas ou
raízes de plantas invasoras. Essa macroporosidade é responsável,
em grande parte, pela aeração e drenagem interna do perfil.
Em resumo, em áreas de plantio direto com alta porosidade, a
atividade biológica é intensa.
A trincheira permite, ainda,
examinar o comportamento do sistema radicular, principalmente pela distribuição
das raízes, bem como pela medição da profundidade
do enraizamento, que dá uma idéia das condições
de adaptação que a planta está tendo para desenvolver-se
no local. Em resumo, em uma área em plantio direto de boa qualidade,
a planta apresenta raízes bem profundas.
Nesse mesmo exame pode-se
verificar a presença de nematóides, que são prejudiciais
às plantas, e a presença de nódulos de bactérias
fixadoras de nitrogênio, benéficas às plantas. Em
resumo, num plantio direto bem manejado há ausência de
nematóides e abundância de organismos fixadores de nitrogênio.
Com relação
à cobertura morta, os parâmetros a serem avaliados são
indiscutivelmente a porcentagem de cobertura do solo na época
da semeadura, uniformidade de picagem e de distribuição
da palha. A porcentagem de cobertura determina a quantidade em área
de solo que está sendo protegido no momento da determinação.
É possível avaliar, pela amostragem, a variabilidade de
cobertura ocorrente na área. Esses parâmetros são
indicadores da capacidade de proteção que a manta de material
orgânico propicia à área, bem como, se amostrados
regularmente, podem dar indicação bem precisa da velocidade
de decomposição, que varia de acordo com o material, época
e forma de picagem. Para medir a porcentagem de cobertura, existe um
método expedito de cálculo matemático simples,
baseado na presença ou não de palha sobre o solo. Para
tanto, basta esticar uma trena sobre o solo e a cada 10 cm verificar
se há ou não palha debaixo do ponto marcado pela trena.
Podem-se avaliar cinco pontos numa amostra de um metro linear, perfazendo
vinte amostras espalhadas por diferentes locais da lavoura, num total
geral de 100 pontos examinados. Considerando que cada ponto vale 1 %
de cobertura, basta somar o número de pontos que tiverem palha
e tem-se a porcentagem total de cobertura de área que se está
examinando. De posse desses valores pode-se avaliar qual é a
eficiência do manejo da palhada no que se refere à cobertura
do solo na época da semeadura. Um outro parâmetro que permite
avaliar a qualidade da cobertura é a uniformidade de picagem,
pois dele dependem dois fatores importantes para o sucesso do plantio
direto, que são boas condições de plantio e velocidade
de decomposição da palha. É extremamente desejável
que a picagem ou a rolagem do material propiciem pedaços ou fragmentos
vegetais de mesmo tamanho. Compridos ou curtos, para uma boa operação
de manejo da palhada é desejável que a picagem seja uniforme,
dando condições para a semeadora trabalhar, mantendo regulagem
por longos períodos e sem problemas com o embuchamento. Um outro
ponto fundamental para qualificar a palhada é a regularidade
da quantidade de massa picada na superfície do solo. É
indesejável a ocorrência de locais com excesso de palha
e outros com falta. Isso compromete a qualidade de todas as operações
subseqüentes, influenciando diretamente a qualidade do estande
e comprometendo a produção. A determinação
desses parâmetros é trabalhosa, mas uma análise
visual no momento da operação auxilia muito os ajustes
da máquinas e estabelece diretrizes para um manejo mais lapidado.
Finalizando, pode-se afirmar que a qualidade do manejo da cobertura
morta passa, indiscutivelmente, pela busca da regularidade e da uniformidade
de picagem e deposição da fitomassa.
Afonso
Peche Filho
Instituto Agronômico, Centro de Mecanização e Automação
Agrícola
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