O Agronômico, 51(1), 1999

CRITÉRIOS PARA AVALIAR A QUALIDADE DO PLANTIO DIRETO

        A agricultura realizada com plantio direto é uma realidade. A cada dia ganha novos adeptos e muitos defendem a técnica somente com base no sucesso inicial, ou seja, no acerto de conseguir, pela primeira vez, semear na palha. O plantio direto não é e nem pode ser simplificado ao ponto de ser considerado uma técnica que somente elimina as operações de mobilização do solo e consegue controlar o mato com o uso de herbicidas. Pode-se considerar o plantio direto como a mais tropical das técnicas de manejo do solo e muitos ainda sentem dificuldades para obter sucesso em todas as fases do processo operacional, face sua complexidade. Apesar da crescente popularização das informações técnicas sobre o sistema, alguns pontos básicos, bem importantes, são esquecidos e comprometem o principal fator de sucesso do plantio direto que é a perenidade produtiva dos solos. 
        Para a adoção e prática contínua do plantio direto o agricultor deve ter em mente que o sucesso do manejo é um conjunto de pequenos detalhes em cada operação e, para isso, é preciso praticar e conhecer a fundo o solo, as plantas, as máquinas e as técnicas de rotação de culturas. 
        É também muito importante que o agricultor adote critérios para avaliar o seu desempenho e, com essa auto-avaliação, passe a adotar também o hábito de buscar a melhoria contínua. 
        Para avaliar a qualidade de uma área cujo sistema de plantio direto está implantado ou em fase de implantação, é necessário averiguação dos resultados buscando analisar alguns detalhes relacionados principalmente com a qualidade produtiva do solo, cobertura morta e cultura instalada. 
        Os parâmetros relacionados com a qualidade produtiva do solo podem ser elencados com base nas condições em que se encontram o "perfil cultural" ou seja, a camada de solo em que ocorrem as reações químicas, físicas e biológicas e o enraizamento. Para tanto, o agricultor deverá fazer uma trincheira com 1 m de comprimento, 0,50 m de largura e 0,60 m de profundidade, que irá servir para averiguar e coletar dados referentes às propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. Com relação às propriedades físicas do solo, o exame em uma das laterais da trincheira deve revelar a presença ou ausência de camada compactada em subsuperfície. Em caso positivo deve-se determinar a posição correta, bem como a espessura da camada compactada. Em casos graves a compactação condena a área, que necessitará de escarificação, subsolagem ou mesmo aração profunda. Em resumo, a compactação severa do solo condena o plantio direto a baixas produtividades. 
        A espessura da camada humificada, aquela camada superficial do solo que tem cor mais escura em função da decomposição dos restos de cultura, também deve ser examinada. Embora esse parâmetro seja pouco estudado, considera-se que à medida que essa espessura aumenta, melhores são as condições para a planta produzir. Em resumo, o plantio direto deve, ano a ano, aumentar a espessura da camada humificada. 
        Um outro parâmetro físico importante, mas pouco divulgado, é a MOL do solo, ou seja, a matéria orgânica livre, que é o material orgânico presente no solo mas que ainda não entrou em processo acelerado de decomposição, como os pedaços de raízes, fragmentos de caule, restos de colheita etc. Esse material, distribuído no perfil cultural do solo, tem o papel de prevenção contra a compactação, pois aumenta a compressibilidade, propiciando aeração e diminuindo o efeito do rearranjamento das partículas do solo causado pelo tráfego de máquinas agrícolas. A MOL do solo pode ser determinada em laboratórios mas, no campo, é avaliada visualmente pela constatação em torrões de solo retirados em profundidade. Em resumo, a presença abundante de MOL no perfil cultural previne as áreas de plantio direto dos efeitos da compactação. 
        Os principais parâmetros de solo ligados às propriedades químicas que devem ser monitoradas pelo agricultor são o pH, o teor de alumínio e a saturação por bases. Nas paredes da trincheira pode-se determinar, facilmente, o pH em diferentes profundidades, com um peagâmetro portátil de leitura direta. Em pH baixo a planta tem dificuldades em desenvolver-se, os fertilizantes ficam imobilizados e também acidificam o solo, as bactérias fixadoras de nitrogênio perdem a eficiência. Em resumo, em plantio direto o pH do solo deve ser monitorado constantemente. 
        A presença do alumínio em níveis tóxicos pode ser confirmada pela análise química do solo coletado nas diferentes profundidades de uma das paredes da trincheira. Visualmente pode-se supor a presença desse elemento tóxico quando o perfil não apresentar sinais de compactação, porém as raízes não se desenvolvem, restringindo-se a crescer somente nas camadas superficiais. Em resumo, áreas de plantio direto para altas produtividades não devem apresentar alumínio em níveis tóxicos. 
        Com relação aos parâmetros para monitoramento da porcentagem de saturação por bases (V %), é imprescindível a análise química que é realizada por laboratórios. Os teores de V % são ajustados para culturas em rotação respeitando o tipo e localização da lavoura. Em resumo, o monitoramento da saturação por bases ajuda a adequar quimicamente o solo local, permitindo respostas mais rápidas do plantio direto. 
        Com relação às propriedades biológicas do solo, o agricultor pode promover averiguações nos parâmetros ligados à porosidade natural, enraizamento, nematóides e nódulos de bactérias fixadoras de nitrogênio. Na trincheira pode-se visualizar a porosidade do solo na forma de galerias resultantes das atividades de larvas de insetos, minhocas, besouros e cupins, como também atividades do sistema radicular das plantas, sejam elas cultivadas ou raízes de plantas invasoras. Essa macroporosidade é responsável, em grande parte, pela aeração e drenagem interna do perfil. Em resumo, em áreas de plantio direto com alta porosidade, a atividade biológica é intensa. 
        A trincheira permite, ainda, examinar o comportamento do sistema radicular, principalmente pela distribuição das raízes, bem como pela medição da profundidade do enraizamento, que dá uma idéia das condições de adaptação que a planta está tendo para desenvolver-se no local. Em resumo, em uma área em plantio direto de boa qualidade, a planta apresenta raízes bem profundas. 
        Nesse mesmo exame pode-se verificar a presença de nematóides, que são prejudiciais às plantas, e a presença de nódulos de bactérias fixadoras de nitrogênio, benéficas às plantas. Em resumo, num plantio direto bem manejado há ausência de nematóides e abundância de organismos fixadores de nitrogênio. 
        Com relação à cobertura morta, os parâmetros a serem avaliados são indiscutivelmente a porcentagem de cobertura do solo na época da semeadura, uniformidade de picagem e de distribuição da palha. A porcentagem de cobertura determina a quantidade em área de solo que está sendo protegido no momento da determinação. É possível avaliar, pela amostragem, a variabilidade de cobertura ocorrente na área. Esses parâmetros são indicadores da capacidade de proteção que a manta de material orgânico propicia à área, bem como, se amostrados regularmente, podem dar indicação bem precisa da velocidade de decomposição, que varia de acordo com o material, época e forma de picagem. Para medir a porcentagem de cobertura, existe um método expedito de cálculo matemático simples, baseado na presença ou não de palha sobre o solo. Para tanto, basta esticar uma trena sobre o solo e a cada 10 cm verificar se há ou não palha debaixo do ponto marcado pela trena. Podem-se avaliar cinco pontos numa amostra de um metro linear, perfazendo vinte amostras espalhadas por diferentes locais da lavoura, num total geral de 100 pontos examinados. Considerando que cada ponto vale 1 % de cobertura, basta somar o número de pontos que tiverem palha e tem-se a porcentagem total de cobertura de área que se está examinando. De posse desses valores pode-se avaliar qual é a eficiência do manejo da palhada no que se refere à cobertura do solo na época da semeadura. Um outro parâmetro que permite avaliar a qualidade da cobertura é a uniformidade de picagem, pois dele dependem dois fatores importantes para o sucesso do plantio direto, que são boas condições de plantio e velocidade de decomposição da palha. É extremamente desejável que a picagem ou a rolagem do material propiciem pedaços ou fragmentos vegetais de mesmo tamanho. Compridos ou curtos, para uma boa operação de manejo da palhada é desejável que a picagem seja uniforme, dando condições para a semeadora trabalhar, mantendo regulagem por longos períodos e sem problemas com o embuchamento. Um outro ponto fundamental para qualificar a palhada é a regularidade da quantidade de massa picada na superfície do solo. É indesejável a ocorrência de locais com excesso de palha e outros com falta. Isso compromete a qualidade de todas as operações subseqüentes, influenciando diretamente a qualidade do estande e comprometendo a produção. A determinação desses parâmetros é trabalhosa, mas uma análise visual no momento da operação auxilia muito os ajustes da máquinas e estabelece diretrizes para um manejo mais lapidado. Finalizando, pode-se afirmar que a qualidade do manejo da cobertura morta passa, indiscutivelmente, pela busca da regularidade e da uniformidade de picagem e deposição da fitomassa. 
 

Afonso Peche Filho 
Instituto Agronômico, Centro de Mecanização e Automação Agrícola 
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